quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A dinâmica luminosidade cromática das monotipias de Fávia


Flávia Fernandes faz parte da geração de artistas paulistanos que, nos anos oitenta, vieram residir na ilha de Santa Catarina, em busca de uma melhor qualidade de vida.
Morou inicialmente na Costa da Lagoa, onde traduziu a exuberante natureza local numa série de pinturas sobre tela. Com as características da nova figuração praticada nos anos oitenta, essas pinturas abordavam temas que refletiam a alegria de viver em meio a um ambiente ainda  natural e harmônico.  Predominavam em sua paleta tons quentes e sensuais: ocres, amarelos, laranjas e vermelhos. Entremeados a nuances de azuis e tons terrosos, criavam uma atmosfera de grande força telúrica, força essa que vai permanecer em praticamente todas as suas outras fases.
Expandindo  suas  indagações, criou inicialmente recortes de madeira, encaminhando-se gradualmente para uma linguagem poética,  que através de estímulos sensoriais, busca uma empatia com o observador, visando redimensionar sua percepção das coisas e do mundo.
Numa outra série de trabalhos denominada “pinturas moles”, criou volumes de tecidos acolchoados  de diferentes texturas. O forte apelo tátil-visual dessas obras,  mobiliza  a atenção do espectador,  fazendo com que o olhar deslize pelas inusitadas superfícies que por vezes recorrem também à pintura.
Notáveis também são os objetos-instalação que a artista desenvolveu com  plástico inflável. Preenchidas com água, essas  formas, que ora sugerem orgânicas águas-vivas, ou imensos colchões d´água,  propiciam singulares vivências sensoriais.
Paralelamente a sua criativa pesquisa de materiais e linguagens, Flávia  manteve sempre um contínuo e profícuo contato com a gravura em metal, uma de suas paixões. 
Atualmente, desenvolve séries de monotipias, que se destacam pelo vibrante campo cromático obtido através da justaposição de várias prensagens de  cores transparentes. A condensação espacial dessas justaposições, proporciona uma dimensão dinâmica e um efeito de luminescência, como se do interior das gravuras emanasse uma  luz quase sublime.
Flávia já fez uma residência num mosteiro zen. Por certo, essa vivência levou-a a aprofundar suas percepções da vida e do universo em toda sua amplitude e mistério.
A fruição plena de sua obra pressupõe uma sensibilidade particular, capaz de captar e ouvir o que tem a nos dizer cada detalhe ou estímulo sensorial proposto pela artista. 
Plenamente realizadas, suas monotipias são obras que não carecem  de explicativas que estejam fora de seu campo de ação.
Mas, se atentarmos bem, encontraremos ressonâncias de mares, terras, pedras, água, ventos, céus e florestas. Ressonâncias que soube muito bem filtrar e transformar em componentes  de sua própria poética.






domingo, 30 de outubro de 2016

Lançamento Histórico: Arte Pública em Florianópolis - 1990/2015.



  No começo dos anos 80, ao ser eleito para assumir a presidência da Associação dos Artistas Plásticos de Florianópolis, cargo deixado vago com o pedido de demissão de Eli Heil que presidia a entidade, tomei, de imediato, várias providências para expandir a área de ação da entidade, dar mais visibilidade à produção das artes plásticas catarinenses e ampliar o campo profissional de nossos artistas. 
  Visando liderar a movimentação das artes plásticas em todo o estado, mudamos o nome da associação, que passou a se chamar ACAP (Associação Catarinense dos Artistas Plásticos). Por tratar-se de uma entidade que reunia artistas plásticos de todas a regiões do estado, pleiteamos e obtivemos o espaço da ex-alfândega para sediar nossas atividades, uma vez que o MASC que ali estivera, havia se mudado para o prédio do CIC.
  Com toda a infra-estrutura propiciada pelo espaço, situado num dos pontos mais centrais da cidade, iniciamos uma série de ações que mudaram radicalmente os perfis da arte produzida até então entre nós. 

  Visando uma atualização, organizamos mostras de outdoor, estandartes, intervenções urbanas, instalações, performances, arte postal, etc., colocando os artistas catarinenses sempre frente a novos desafios. O resultado dessa movimentação dos anos 80, pode ser conferido no 'Panorama do Volume', que decidimos, eu e Harry Laus, promover no MASC, em 1990. Colocando frente a frente os artistas com a linguagem tridimensional, conseguiu-se um resultado que extrapolou os limites de Santa Catarina. A 'Gazeta do Povo', de Curitiba, publicou uma extensa análise da crítica paranaense Adalice Araújo que, entre outros elogios, afirmava que o nível do 'Panorama do Volume' nada ficava a dever às melhores mostras internacionais congêneres.
  Percebendo a importância desse grande divisor de águas entre o anacronismo reinante a poucas décadas atrás, e as linguagens das novas gerações que se impunham, em 1985 encaminhamos à câmara municipal um projeto de arte pública semelhante ao que já existia na cidade de Recife, em Pernambuco. Os objetivos eram estimular os artistas a abandonarem a linha de conforto e passarem a encarar os desafios que essa questão tão importante da contemporaneidade propunha a todos. 
  Ampliar o mercado profissional de nossas artes, humanizar o espaço urbano, permitindo um contato direto da arte com o grande público, foram os principais motivos que nos fizeram tomar esta iniciativa, cujos frutos hoje podem bem ser avaliados com o lançamento da histórica edição do livro-catálogo Florianópolis Arte Pública 1990-2015.
  O processo inicial que deu origem a essa lei, foi o envio que fizemos para a câmera de vereadores de Florianópolis, de um texto baseado na lei de arte pública de Recife que tornava obrigatório a inclusão de obras de arte em edificações de mais de 1000 metros quadrados. Sob a alegação de que a inclusão obrigatória de obras de arte iria onerar o custo de cada edificação, o projeto foi rejeitado. Anos depois, fui chamado na câmara, pois havia interesse das construtoras de que a lei fosse implantada, desde que a colocação das obras não fosse obrigatória  mas opcional e caso a construtora fizesse uso da mesma, seria beneficiada com 2% a mais sobre a taxa de ocupação. Essa alteração tornou a lei viável e possibilitou  a sua implantação.
  Sonhávamos que com a existência dessa lei de arte pública, finalmente seria possível termos painéis murais ou esculturas de Eli Heil, Cascaes, Pléticos, Meyer Filho, Vechietti, Martinho, Hassis e tantos outros  espalhados pela cidade. Infelizmente, devido a uma série de fatores, isso não ocorreu.
  Como o assunto da arte púbica nunca havia sido levantado, de início foi difícil convencer os artistas a enviarem projetos para o IPUF ou procurarem as construtoras. Os primeiros passos na implantação desta lei foram tímidos e tateantes, mas pouco a pouco, artistas de outras gerações começaram a se interessar e por volta de 1995 começaram a aparecer as primeiras obras significativas. 
Obra de Nani Eskelsen
  A comissão de arte pública foi criada. Aprimorada através dos anos, passou a ter papel fundamental para o sucesso do projeto. Dialogando com os artistas, levantando questões, sugerindo estratégias, propiciou um amadurecimento gradual de todos os envolvidos na questão. Hoje, decorridos 25 anos da data de implantação do projeto,  a cidade ganhou um acervo considerável de arte inserida em seu espaço urbano. Atualmente, mais de 300 obras espalham-se pelos mais diversos pontos no centro e nos bairros. Ampliando consideravelmente o campo profissional para nossos artistas, essa lei deu maior visibilidade à produção contemporânea catarinense, lançou novos artistas e sobretudo enriqueceu nosso espaço urbano. 

Obra de Giovana Zimermann

  A equipe de arte púbica do IPUF, juntamente com a comissão municipal de arte pública Comap, enfrentou com galhardia problemas e desafios de toda especie.
Com muita competência, paixão, idealismo e persistência, conseguiu fazer com que nossa lei de arte pública seja hoje, por seu alto padrão, um paradigma, reconhecido pela sua qualidade  tanto nacional como internacionalmente.
  Num país onde quase inexistem políticas definidas nem regras claras para a questão da arte pública, é fácil avaliar a importância de que se reveste todo esse processo de implantação e viabilização das ideias contidas no projeto. 
  Vários técnicos do IPUF e colaboradores contribuíram para que se alcançasse um patamar de excelência. Destacam-se, dentre os vários gestores, os trabalhos de Lú Pires, coordenadora da comissão de arte, e César Floriano, seu principal mentor intelectual.
  Com uma consistente formação profissional e uma paixão sem limites pela questão da arte pública, Floriano ampliou com seu olhar o alcance das propostas inicialmente colocadas no texto original  da lei.
  Podemos considerar que a forma como a lei de arte pública foi viabilizada e implantada na capital do estado, fez dela um dos fatores mais relevantes para o estímulo, atualização e aprimoramento das linguagens utilizadas por nossos artistas para darem o seu recado. 
  Despertando um novo olhar naqueles que a encontram no seu dia-a-dia, as obras de arte pública, além de propiciar uma fruição estética a todos, contribuem e muito para a educação artística do público. Humanizam o espaço urbano, tornam-se um referencial da paisagem e do espaço, funcionam entre tantas outras finalidades como um despertar da sensibilidade e uma introdução ao gosto pela arte. 
  Afinal, uma das funções humanas mais vitais é justamente a criação e a fruição da obra de arte. Parabéns, pois, a todos que tornaram possível esta realidade, hoje vivenciada na capital catarinense. 



Obra de Paulo Gaiad

domingo, 9 de outubro de 2016

Um Campus sem Alma: UFSC - ARS ET SCIENTIA?

Outdoor do artista Meyer Filho

Em matéria já publicada neste blog, falamos sobre o descaso para com as artes plásticas catarinenses, um dos nossos mais relevantes setores culturais.
Infelizmente, esse descaso e indiferença não se restringem unicamente aos poderes municipais e estaduais mas contamina também, praticamente, todas as instituições que poderiam contribuir para que a situação fosse outra. 
Vejamos, por exemplo, o caso da própria Ufsc, que traz em seu emblema o lema Ars et Scientia. Para cumprir plenamente o papel que se espera de uma universidade civilizada, sua ação, no que concerne as artes plásticas, deveria ser bem outra que a que vem adotando em sua história. Os fatos falam por si: na gestão do reitor Diomário Queiroz, por exemplo, houve uma tentativa de integração entre os artistas e a Ufsc, um atelier de gravura em metal foi formado. Dirigido por Max Moura e Flávia Fernandes, essa oficina do mais alto nível conseguiu fazer uma permuta com a própria universidade, que em troca de um painel mural constituído  por gravuras de artistas que frequentavam o atelier, adquiriu uma sofisticada prensa de gravura em metal. Pois bem, essa grande prensa elétrica, a melhor existente no estado, foi simplesmente abandonada quando da mudança de reitor. 
Segundo nos informaram, o espaço que abrigava as oficinas foi requisitado por um curso, parece-nos, de engenharia, e a prensa ficou simplesmente abandonada num local sem condições mínimas de abrigar tão precioso acervo. Deteriorando-se com as intempéries e o abandono, a prensa foi requisitada pela Udesc, pois por parte da Ufsc, não houve o menor interesse de dar continuidade ao importante trabalho que vinha sendo realizado nas oficinas que foram simplesmente desativadas, impedindo a continuação de uma  pesquisa e produção gráfica das mais relevantes. 

Quanto ao painel de gravuras que ensejou a permuta, foi colocado ao lado da escada que dava acesso ao segundo piso do seu antigo centro de convivências.

Não sabemos as condições em que se encontra hoje,  uma vez que o  Centro de Convivência foi reformado. Esperamos que não tenha tido o mesmo triste destino da Galeria de Arte da Ufsc que, fechada para reformas há quase uma década ou mais, simplesmente desapareceu sem deixar vestígio, provocando um prejuízo incomensurável para a  vida cultural do campus. 
Atualmente, alguns cursos de artes vem sendo implantados como cinema, teatro e design, mas é preciso ir bem mais além. A Usp, por exemplo, mantem e administra o Mac, um dos maiores museus de arte da América Latina. Por que a Ufsc não tenta seguir o exemplo, criando um museu de ate contemporânea que possibilite aos artistas catarinenses ou de outros estados mostrarem sua produção aos estudantes que estão sendo formados nesta universidade? 
Lembremo-nos que fora da cultura e da arte não há civilização possível, e se considerarmos a realidade em que vivemos, sob esse aspecto, ainda estamos bem próximos a barbárie. 
A foto que acompanha esse texto reproduz o outdoor do artista Meyer Filho, que fazendo parte do evento Arte na Rua II, que organizamos através da Acap, nos anos 80, com a participação de 20 dentre os mais importantes artistas catarinenses, deixou registrado seu protesto histórico, para com essa omissão da Ufsc. Em seu texto, Meyer pergunta porque que a Ufsc insiste, desde os anos 60, ignorar o talento do artista Meyer Filho. Infelizmente, a atualidade do texto permanece.
E só trocar o nome de Meyer pela quase totalidade dos artistas que são igualmente solenemente ignorados. 

sábado, 8 de outubro de 2016

Mostra Individual de Rodrigo de Haro: Dos Arquétipos (o poder das imagens)

   Sábio e profético, Rodrigo de Haro proclamou, certa vez, que "a arte, o amor e a mística só se realizam plenamente mediante uma entrega total". Figura das mais singulares e emblemáticas da arte, Rodrigo soube realizar esta entrega, transformando sua própria vida numa obra de arte. 
   No silêncio e recolhimento de seu atelier, situado no alto de uma colina, ao lado de um santuário barroco, com disciplina monacal, dedica-se integralmente a lenta, apaixonada e laboriosa construção de seus manuscritos poéticos e de sua majestosa pintura. 
   Através das imagens arquetípicas do tarô e do zodíaco, aponta-nos que são essas imagens que nos revelam os mais profundos aspectos da realidade, e as mais secretas modalidades do ser. São essas imagens que podem revelar sua realidade, suas funções cosmológicas, antropológicas e psicológicas, que serviram de inspiração para Rodrigo elaborar essa série de obras, que ao celebrarem o triunfo da imaginação e da poesia, permitem conhecer melhor o homem na sua integridade. 
   Não existe miséria pior que a falta de imaginação. Um homem sem imaginação é um ser limitado, triste, medíocre e infeliz. A crescente esterilização da imaginação do mundo moderno é um dos piores males de nosso sistema. Um bom antídoto para que esse mal não nos acometa, é refletir sobre as questões que essa mostra de De Haro nos propõe. Ter imaginação é gozar de uma riqueza interna, de um fluxo ininterrupto e espontâneo de imagens, é ver o mundo em toda sua totalidade.
   Com seu estilo peculiar, Rodrigo expõe acrílicos sobre tela ou papel que destacam-se pela elegância extraordinária do desenho, contraste das vastas áreas de cores chapadas, e rigorosa bidimensionalidade cromática, obtida através de pinceladas justapostas de cores moduladas. Planas e intensamente coloridas, essas pinturas exploram com sensibilidade impar, o valor plástico fundamental e a expressividade da linha, levando-a a um verdadeiro arrebatamento linear, opulento e requintado. 
   Rodrigo sempre deu um papel de destaque à linha em seus trabalhos. Nessa série, porém, percebe-se que a mesma vai cedendo  espaço à cor, ligando-se mais visceralmente à matéria, acentuando aspectos predominantemente pictóricos.
   Uma característica de todo grande artista é a síntese formal que vai ocorrendo gradualmente através de suas diferentes fases. Rodrigo, também poeta, da mesma forma que burilou a palavra em seus textos poéticos, desossou-a e lapidou-a, sintetizou os elementos formais com que constrói suas pinturas. Suas cartas de tarô são exemplares neste sentido. Tudo que não interessa é deixado de lado. Adensando sua linguagem, captou apenas o que é essencial em cada arcano.
   Os temas místico-esotéricos, em geral, são uma cilada para artistas menores, que, sem fôlego para adentrá-los com mais profundidade, caem no esteriótipo ou na simples ilustração.
   No caso de Rodrigo, o percurso é inverso. Vivenciando profundamente cada símbolo ou imagem que utiliza, atingiu a substância mesma da vida espiritual de onde brotam essas figuras arquetípicas, transformando-as em potentes signos plásticos capazes de nos despertar para a importância primordial deste inestimável tesouro de imagens que trazemos conosco.




quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Santa Catarina – Um Estado sem Memória I

Dentre as manifestações artístico-culturais de Santa Catarina, as artes plásticas, desde Victor Meirelles, foram sempre um dos setores mais relevantes. Sendo uma das maiores economias nacionais, nosso estado deveria e poderia! dar à questão cultural a importância que merece. 
A inexistência de uma secretaria de cultura já demonstra bem o descaso com que o assunto é tratado na esfera oficial. Acoplada a outras pastas, entregue sempre a pessoas sem a mínima condição técnica de desempenhar suas funções, a cultura é sempre colocada como algo secundário e sem importância vital. 
As famigeradas alianças políticas, que servem de sustentação ao governo, leiloam a pasta que engloba a cultura entre si e tratam-na com a ineficácia de quem nada entende do assunto. Conseqüência é o descompasso cultural de Santa Catarina em relação aos estados vizinhos. 

Cais de Florianópolis de Martinho de Haro
Vejamos, por exemplo, o setor das artes visuais: Recentemente, constatei que dois jovens artistas, formados pelo curso de artes visuais da Udesc, ignoravam totalmente o nome do artista Martinho de Haro. 
Segundo eles, nunca tinham ouvido falar sobre o mesmo, muito menos sobre a sua obra. Culpa da Udesc? Dos professores, que tão entretidos em falar das teorias de Deleuze, Foucault, Derrida e outros filósofos franceses, não encontram tempo nem motivação para ao menos citar aos alunos que tivemos dentre os artistas que nos precederam o maior representante do modernismo em Santa Catarina? Na verdade, são diversos fatores que se somam para explicar essa verdadeira idiotia demonstrada por esses dois jovens. 
Um deles é a inexistência de museus que dêem  visibilidade a produção cultural catarinense atual e de outros períodos históricos. Onde é que nossos jovens podem ter contato com a obra de Martinho de Haro, Vicchietti, Meyer Filho, Elke Hering e tantos outros, que dedicaram as suas existências a construir um rico acervo que reflete os valores de uma sociedade que insiste em ignorá-los? Pela falta de uma política de valorização de nossa identidade permanecemos como eterno ‘buraco negro’ no mapa cultural do país. Os esforços para mudar este status-quo de marasmo e inércia, são todos abortados pela falta de visão e perspectiva dos responsáveis pelo poder. Onde foi parar, por exemplo, o Salão Nacional  Victor Meirelles e o Circuito Itinerante de Mostras da Visualidade Catarinense? 
Obra de Ivens Machado
Voltamos à estaca zero. Outro exemplo: Ivens Machado, nascido em Florianópolis e falecido recentemente, era considerado ao lado de Victor Meirelles e Schwanke, como um dos três artistas catarinenses mais importantes de todos os tempos. 
 Essa análise da Fundação Bienal de São Paulo, por certo nunca foi considerada por nossos secretários de “cultura”, que, certamente, nem sabem de quem se trata. Ivens, alguns anos atrás, teve uma grande mostra retrospectiva, percorrendo os principais centros culturais do país. Atualmente, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro realiza também uma grande mostra retrospectiva sua, homenageando a memória desse artista tão vital para arte contemporânea brasileira, cuja obra não foi jamais mostrada em sua terra natal pela alegação dos mesmos motivos de sempre: “- Não tem verba!”- Mas para outras coisas bastante questionáveis, nunca falta dinheiro. 
Os Linguarudos - Obra de Schwanke

Poderíamos elencar centenas de outros fatos que atestam claramente o menosprezo que existe por aqui com nossa memória cultural: Malinverni Filho, por exemplo, teve seu centenário solenemente ignorado. Que custava ao Masc ter trazido até a capital a obra desse grande intérprete de nossa paisagem serrana e editado um livro/catálogo a altura de seu trabalho? São os bens simbólicos, patrimônio imaterial, que nutrem a alma e dão sentido ao futuro. Quando é que Santa Catarina vai despertar de seu sono letárgico, sacudir esse marasmo e dar a cultura e a arte de seu povo o tratamento e a importância que merecem?

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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A obra que deveria estar na entrada da cidade

     

     Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso estético e informação, concluirá facilmente, ao comparar as fotos da proposta vencedora de Doraci Girrulat, em concurso para escolher a criação de um marco em homenagem a etnia açoriana,  com o que foi colocado em seu lugar, em revelia da decisão do corpo de jurados, concluirá que foi uma lamentável decisão sem justificativa. O motivo alegado de que a verba disponível para a execução do projeto não comportava uma obra do porte da proposta de Doraci, poderia ser contornado, conseguindo-se o apoio do empresariado catarinense. 
     Afinal, Santa Catarina quer ou não quer mostrar o que de melhor se produz aqui? Ou vamos nos acomodar com as eternas desculpas de não haver recursos para arte?
Graças a Deus, Doraci está viva e atuante. Um de seus sonhos é deixar para Santa Catarina essa obra magnífica, que é também um marco de seu trabalho escultórico.
     Artista homenageada numa das edições do Salão Nacional Victor Meirelles, Doraci Girrulat foi na ocasião apresentada pelo então diretor do Masc, João  Evangelista de Andrade Filho, como a mais relevante artista catarinense da segunda metade do século XX. Atualmente existe um fundo municipal para ser aplicado em obras de arte pública, que poderia ser complementado com patrocínio de empresários inteligentes, que tornariam exequível a concretização desta obra referencial. 
     Os Catarinenses ficariam livres do constrangimento de passar diariamente pelo que foi colocado indevidamente no lugar da obra premiada. Ao invés de constrangidos, ficaríamos orgulhosos e agradecidos por termos uma escultura do porte dessa obra de Doraci, dando boas vindas aos que visitam a capital do estado. 





PS: Para evitar mal entendidos, é bom frisar que não estamos criticando o autor da obra, conhecida como 'espeto corrido', e sim o trabalho que ai está e que não representa de jeito nenhum o melhor de sua produção.

PS2: Um problema desses concursos propostos por entidades, que querem homenagear essa ou aquela causa, é que acabam direcionando artistas mais ingênuos, que na vontade de agradar acabam apostando no óbvio. Dai, o desastre é total. Basta vermos o horror estético de "monumentos" tipo o que homenageia a PM, colocado acintosamente na via mais nobre da cidade, a Beira-Mar Norte. A PM de Santa Catarina merece ser homenageada sim, mas dentro do espaço que sedia seu campus. Para que uma possível homenagem possa ser colocada em espaço público, é imprescindível que se siga a orientação de pessoas tecnicamente capacitadas para fazê-lo. No caso de Florianópolis, temos uma comissão de arte pública de padrão internacional. Aposto que nem foi consultada. 
Outra aberração gritante é o "monumento aos coxinhas", colocado no largo da Alfândega, que compromete visualmente o mais relevante exemplar da arquitetura neoclássica de Santa Catarina.
Vão dizer que "o povo gosta"! Mas isso não é argumento para justificar o equívoco de confundir o que é arte pública com arremedos bisonhos de alegorias primárias de escolas de samba de terceiro grupo.

     Está na hora de deixarmos de ser provincianos e cultivar o kitsch como a única opção estética ao nosso alcance. Não adianta a capital do estado, que atrai visitantes do mundo todo, querer ser moderninha, com suas festas eletrônicas (nada contra!) e desqualificar o espaço público com trabalhos altamente comprometedores para qualquer civilização.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Arte Pública e a Qualificação do Espaço Urbano

         A polêmica criada com a intervenção feita na montagem que, ao lado da entrada principal da cidade, pretende homenagear a cultura açoriana, merece algumas considerações: 
      Há alguns anos, participei, no Centro Integrado de Cultura,  de uma comissão julgadora que tinha como objetivo escolher e premiar a melhor proposta para criação de um marco que homenageasse a imigração açoriana no estado. 
     Dentre os trabalhos recebidos pela comissão constatou-se que apenas uma proposta possuía qualidade suficiente para realizar um projeto de tal envergadura. Os demais concorrentes, por não terem as condições mínimas necessárias,  foram simplesmente desclassificados.
     O trabalho escolhido e premiado foi  a proposta da artista Doraci Girrulat, que, numa linguagem contemporânea, criou uma obra a partir de estruturas curvas  de metal cujas formas escultóricas em três módulos vazados sugeriam sutilmente o desenho das velas das naus. 
     A superfície desses módulos, obtida através de tramas de aço, em alguns pontos criava recortes que remetiam  às tramas dos crivos, rendas e bordados ilhéus. Essa escultura foi pensada para ser colocada ao ar livre, junto a cabeceira da nova ponte. Seria uma referência para a cidade e uma digna homenagem aos que a colonizaram. 
     Porém, por motivos puramente pecuniários, os promotores do evento, num desrespeito total a decisão do júri, optaram por mandar erigir uma obra de custo menor, que não tinha sequer sido classificada.
     Uma obra de arte não se justifica apenas pelas intenções do autor, mas sim pelo resultado que ele consegue obter na estruturação formal de sua proposta. O que colocaram ali é ingênuo, bisonho e altamente comprometedor. A cidade, que poderia ter em seu acervo de arte pública uma obra do porte da proposta premiada, acabou ganhando um 'presente de grego'. 
     Temos uma comissão de arte púbica, que vem tendo uma atuação altamente gabaritada. Essa comissão deveria ser consultada não só sobre esse assunto, mas sobre a colocação de qualquer obra em espaços públicos, pois não se justifica que os mesmos sejam invadidos por trabalhos que nada acrescentam ao nosso acervo de arte pública, que está sendo construído com critérios bastante claros.      
     Ainda é tempo de desfazer o equívoco e remediá-lo. Atualmente, existe um fundo municipal de arte pública, e esse poderia, quem sabe, ser utilizado para concretizar-se a proposta de Doraci, com a qual o povo e a cultura açoriana seriam homenageados a altura da importância da contribuição que nos legaram. 



Beta Monfroni

   Tendo como ponto de partida a observação de simples feixes de gravetos, Beta Monfroni como excelente desenhista que é, despojou-os de seu peso, volume e características não essenciais, convertendo-os em ideias com as quais criou sua escrita particular.
Essa escrita nos fala de um microcosmo pautado pela discrição, sutileza e sensibilidade.
   A expressividade dos desenhos resulta da fluidez do traço, dos contrastes estabelecidos entre linhas de diferentes espessuras, das texturas gráficas obtidas através de um maior ou menor adensamento de linhas que ora se expandem ora se contraem, e, sobretudo, pela tensão espacial criada pela justaposição de verticais e diagonais que predominam, impregnando as composições com seu instável equilíbrio. Sem conotações ilustrativas, são desenhos que possuem uma absoluta autonomia plástica.
   Através dessa técnica que é a arte mais elementar da plástica, presente em praticamente todas as formas de expressão artística, Beta nos fala da sua própria subjetividade com suas tensões, conflitos, perplexidades e encantamentos.

  

domingo, 25 de setembro de 2016

Fernando Lindote

Fernando Lindote é um dos raros artistas que sem repetir-se jamais, transita com desenvoltura e de forma muito marcante, pelas principais vertentes da arte contemporânea.
A experimentação plástica, aliada a uma inesgotável capacidade criadora, levou-o a recorrer em diferentes fases, aos mais diversos materiais, procedimentos e suportes.
Em sua individual que esta acontecendo na galeria Sítio, através de impactante série de óleos sobre tela, articula contundente libelo plástico contra todas as formas de opressão, violência e brutalidade que emanam do centro de um sistema injusto, desumano e cruel.
A exposição organiza-se em torno de dois núcleos: num deles, colocado logo a entrada, imagens metafóricas de símbolos do poder erguem suas torres fantasmagóricas em meio a vermelhidão de um campo de guerra minado, atravessado por tanques blindados.

      Outra tela de igual dimensão, toda em branco e preto, apresenta as mesmas imagens sinistras da praça dos Três Poderes com seus ícones inconfundíveis, corroídos, transformados em carcaças e escombros. Essas estruturas apocalípticas que desabam sobre si mesmas recortam-se contra um fundo negro, que reproduz em relevos da tinta empastada silhuetas do Pão de Açúcar e da Baia de Guanabara, numa busca patética de luz.
O outro núcleo da mostra, organiza-se em torno da grande tela que representa a figura inquietante de um suíno multicolor de pé, posando à maneira dos retratos oficiais dos grandes mandatários. Na parede ao lado, perfilam-se em pequenas telas irônicos “auto-retratos com máscara de porco”.
Na ambivalência representativa dos símbolos e metáforas que utiliza, Lindote sabe evitar o tom discursivo, permitindo sempre que os elementos formais sejam os protagonistas da obra.
Valendo-se dos recursos expressivos tradicionais da técnica da pintura a óleo, transforma, a partir da aplicação de texturas, cores e veladuras, a superfície das telas em campos magnéticos, em torno dos quais gravitam outros signos.
Tensões espaciais reveladas em todo seu poder sugestivo, planos e cores simplificados ao extremo, estruturam-se visceralmente, estabelecendo o drama plástico que desvela toda a extensão da tragédia contemporânea.
Colocando-se não como ator da cena, mas sim como testemunha perplexa de um mundo dilacerado, o artista mantém metafórica distância em relação ao tema, que lhe permite delimitar pela própria estrutura formal, a significação dos símbolos adotados, de maneira que persista a autonomia plástica e coexistam significados emocionais diversos ou mesmo contraditórios.
A pintura que encerra a exposição é uma surpreendente e magistral natureza morta. Buscando na melhor tradição do gênero os símbolos da efemeridade da vida, da ressurreição e da morte, o artista criou um conjunto de trágica e deslumbrante beleza.
Sob a iluminação barroca de um céu tormentoso, onde apenas uma nesga de azul aparece, um crânio invertido serve de pedestal para uma borboleta furta-cor.
No canto direito da tela, envolta em luminosas e transparentes veladuras, num grito de luz e de esperança, uma flor esplêndida desabrocha. Formula plasticamente premissas básicas para a construção de um novo homem e do advento de uma nova humanidade...





Janor Vasconcelos



 A série de trabalhos de Janor Vasconcelos, inspirada no cotidiano das minas de carvão do sul do Estado, destaca-se entre a produção visual catarinense, por sua tendência social e pela sua singular expressividade.
Dando visibilidade a estes seres que vivem confinados aos subterrâneos das minas, de onde extraem a riqueza do solo com suas mãos encarvoadas e grosseiras, o artista, ao mesmo tempo que denuncia as precárias condições de vida em que vivem esses operários, traça uma das mais contundentes obras gráficas a partir da elaboração formal desse tema.
Seu processo de criação justapõe o desenho de cabeças de mineiros, que com seus capacetes característicos, repetem –se como módulos num continuo moto - perpétuo.
Na composição, obedece sempre a uma hierarquia das formas, sintetiza os elementos, deixa de lado o que não interessa, e articula uma trama em formato de grade, formadora de um todo completo em si mesmo, que nos revela a essência e o segredo de sua obra.
Transformadas em signos gráficos, as cabeças de mineiros atingem sua máxima potência expressiva, na própria articulação do arcabouço estrutural que lhes serve de sustentação.
Essas complexas estruturas, desenhadas de forma quase compulsiva, delineiam e estabelecem tensões espaciais, cuja fluidez coloca o observador em contato direto com o próprio processo criativo. É um processo, cuja vocação ordenadora, se apodera dos elementos formais contidos no tema básico, e os estrutura de maneira a desvendar totalmente a essência irredutível da necessidade primordial de expressão.
Repetidos de forma quase compulsiva, a impressionante força desses desenhos, resulta da própria exteriorização formal da vida, captada em seu ritmo vital onipresente.
Criativo e inquieto, o autor além dos desenhos a nanquim sobre suportes de papel, que por vezes se estendem por vários metros ocupando toda a extensão da parede, incursiona pela tridimensionalidade através de esculturas cerâmicas, bronze e instalações.
As esculturas em terracota ou em bronze, impõem-se pela dramaticidade e grande força telúrica .
Partindo sempre do universo que envolve a extração do carvão, Janor apropia-se de teodolitos, fragmentos de minério ou outros objetos congêneres para delimitar o espaço de suas instalações que utilizam também fotos ampliadas das bocas de minas abandonadas ou não.
Em outras propostas prevalece o caráter processual como é o caso das montagens sobre a parede das centenas de canetas utilizadas na criação dos desenhos, ou nos fragmentos de pregos de aço atirados sobre os trilhos dos vagões que conduzem o carvão. Após serem amassados pela passagem do trem, esses pregos são recolhidos e aproveitados como elementos formais definidores da proposta processual, que obedece a mesma vocação ordenadora e lógica formal seriada dos desenhos.
Esse procedimento com os pregos atirados sobre trilhos, remonta à memórias da infância do artista que costumava brincar com seus colegas ao lado da ferrovia.
Propondo uma reflexão sobre a alienante massificação a que estamos todos sujeitos, os trabalhos de Janor deixam emergir na sua própria estrutura formal um aspecto lúdico construtivo que aponta para a necessidade de recuperarmos a vitalidade primeira, seguirmos nossos impulsos interiores, e conquistarmos a plenitude da existência, não obstante as amarras e impedimentos das redes e tramas dos sistema.



Dois passos para frente e três para trás! Artes Plásticas Catarinenses

Não há como negar que houve um considerável retrocesso em relação a conquistas que os artistas catarinenses, a duras penas, tinham conseguido há décadas atrás. O motivo principal, sem dúvida, é a desorganização da classe artística e absoluta ausência de lideranças que consigam aglutinar o setor em torno de suas propostas. Nos últimos anos, assistimos a desagregação das Associações de Classe, que tiveram um papel fundamental em relação a assuntos estratégicos, tais como os circuitos de arte catarinense, através dos panoramas, que itineravam pelo estado, apresentando a produção das diversas regiões de Santa Catarina. Da mesma maneira, o Salão Nacional Victor Meirelles, que permitia uma atualização constante de nossa arte em relação ao que se faz no resto do país, além de apresentar nossos artistas a críticos e curadores do centro do país, desapareceu também sem que a classe artística desse o menor sinal de não estar conivente com o caso. Quanto a FCC, através da sua diretoria de arte, limitou-se a dar as desculpas de sempre: "-O Salão está sendo repensado, blá, blá, blá...". Na verdade, o que ocorreu foi a pura e simples extinção do mais importante evento de artes plásticas que Santa Catarina conseguiu realizar em toda a sua história. A própria direção do MASC, entregue atualmente a um jovem simpático mas sem condições de desempenhar a função de liderança da visualidade catarinense que fica a mercê de si mesma, sem sair do lugar e pior, retrocedendo cada vez de forma mais irreversível a um estado de inércia e marasmo. A culpa é dos próprios artistas que tudo aceitam e não assumem o seu papel perante as instituições. O Estado é uma pedra que só se move sob pressão. Esta realidade óbvia parece ser ignorada por aqueles que ficam esperando que haja qualquer mudança milagrosa por parte dos que administram o setor cultural institucional de Santa Catarina. Se não houver pressão, cobrança constante e propostas compatíveis com nossa realidade vamos continuar na mesmice. Claro que existem artistas e grupos fazendo seus trabalhos, porém falta uma aglutinação em torno de objetivos comuns e cada um acaba ficando isolado, sem ter condições de desempenhar seu papel em toda plenitude.
Obra de Rubens Oestroem, premiada numa das edições do Salão Nacional Victor Meirelles



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Com a pá virada ::: Opiniões, críticas e sugestões sobre a atual situação das artes plásticas em Santa Catarina. IoI :)