quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CANTO DA TERRA - A EXPRESSÃO DA ALMA DE UM POVO E O PAPEL DA CASA AÇORIANA NO PROCESSO DE VALORIZAÇÃO DAS NOSSAS MAIS GENUÍNAS EXPRESSÕES ARTÍSTICAS

Vista geral da mostra "Canto da Terra"

A cultura popular da grande Florianópolis reúne hoje o mais expressivo conjunto de artistas naïfs da região sul do país. Intuitivos, sensíveis e criativos, esses artistas refletem em suas obras a riqueza da mescla das mais diferentes matrizes e etnias,  que contribuíram para formar a população litorânea do nosso Estado.
Criando suas linguagens a partir da percepção do espaço onde vivem, revelam-nos suas visões de mundo com autenticidade, poesia e forte sentimento telúrico. Praticando uma arte muito próxima das genuínas fontes da criatividade e da vida, obtiveram reconhecimento nacional devido a uma série de fatores, dentre os quais se destaca o papel fundamental que o Centro Cultural Artes e Tramoias Ilhoas de Sto. Antônio de Lisboa, exerceu a partir de sua criação em junho de 1985.
Neste espaço cultural, criado de início especialmente para esse tipo de manifestação artística, esses artistas tiveram a orientação, estímulo e apoio para desabrocharem seu talento e para  terem a importância de seu trabalho reconhecida.
O incentivo às manifestações culturais de matrizes populares norteou o trabalho da Casa desde seu início, pois foi justamente a partir de um movimento de cultura popular que ela surgiu.
A ideia era não discriminar a arte popular, colocando-a num gueto, mas sim colocá-la no mesmo patamar da arte considerada ‘erudita’. Quando a qualidade artística se faz presente, essas fronteiras se diluem e desaparecem. Assim, a Casa Açoriana foi o primeiro espaço cultural em Santa Catarina a colocar lado a lado obras provenientes do universo da cultura popular e obras dos mais relevantes artistas plásticos catarinenses.

                                  
  Peça de cerâmica de Adelina Medeiros, em homenagem a Casa Açoriana.
Dona Adelina Medeiros, por exemplo, uma das mais representativas figureiras, chegava a chorar inconformada com a desvalorização do trabalho ao qual dedicava toda a sua existência. Certa ocasião, ela me confessou: “- Janga, é tão triste a gente criar com tanta dedicação e amor e as pessoas nem saberem nosso nome, pois só se fala dos artistas das telas e nós somos simplesmente ignorados.”Lembro-me que na inexistência de locais apropriados para expor sua produção, nossos figureiros tradicionais só tinham como opção vender por centavos suas peças, que eram expostas no mercado,  praticamente jogadas no chão ao lado de panelas, peças de gesso etc.
Na ocasião, eu prometi que a Casa Açoriana iria fazer de tudo para reverter essa situação, expondo as peças de forma condigna com curadoria, boa iluminação e ambientação apropriada para realçar as qualidades artísticas das peças, valorizá-las através de textos críticos, divulgação na mídia exposições, etc.
A situação denunciada por Adelina era a mesma enfrentada por praticamente todos os nossos grandes artistas populares.
Provenientes em sua maioria de classes sociais menos favorecidas, eles não tinham voz, sem acesso a mídia e aos espaços culturais, sendo praticamente colocados à margem do circuito artístico cultural da cidade.

Ademar Melo - Lanterna do Divino
Ademar Melo já nem expunha mais, desanimado com a precariedade das condições existentes. Com o surgimento da Casa Açoriana, voltou a criar e permaneceu na ativa até os noventa anos, quando faleceu.
Antônio Machado, nosso maior escultor em madeira, antes da Casa Açoriana existir vendia suas obras na garupa da bicicleta de seu filho Toninho, que aos sábados ia de casa em casa em Cacupé, mostrando as peças acondicionadas em caixas de sapato.

Antônio Machado - Vaca sendo ordenhada
Destaque dentre os artistas que expunham na Casa Açoriana, sua obra a partir dai, atravessou fronteiras chegando a ser exposta no Museu de Arte de Brasília ao lado de Antônio Poteiro, GTO e outros expoentes da cultura popular nacional. Hoje, suas obras integram coleções de várias partes do país e do exterior. A Casa Açoriana, durante anos, adquiriu toda sua produção, proporcionando-lhe uma velhice mais digna, uma vez que tinha garantida mensalmente uma complementação de sua modesta aposentadoria.

Antônio Machado - Cavalo

Todos esses artistas sem exceção, afirmaram sempre que se não fosse a Casa Açoriana teriam parado de produzir há muito tempo.
Com esforços e sacrifícios e mantendo-se a duras penas, esse espaço cultural movido a paixão e idealismo acabou sendo reconhecido nacionalmente conforme atestam as centenas de matérias da mídia e os depoimentos de visitantes. Pela relevância cultural e alcance da sua proposta, a Casa Açoriana foi incluída entre os quinhentos mais importantes pontos de turismo cultural do país, pela revista VEJA. Esse reconhecimento da importância da Casa Açoriana como vitrine do melhor da produção artesanal de referencia cultural, fez com que fosse o único espaço catarinense citado por SIG BERGAMIN em seu livro ADORO O BRASIL, onde ele faz um  levantamento do que há de mais requintado e autêntico no artesanato nacional. 
Com muito trabalho e dedicação de toda uma equipe abnegada, a Casa Açoriana conseguiu  muita coisa no sentido de valorizar a produção de nossos artistas mais genuínos. Hoje, trabalhamos com mais de oitenta fornecedores entre artesãos e artistas das mais variadas técnicas e segmentos.
Dona Adelina Medeiros tornou-se bem conhecida e integra o mais importante livro publicado sobre arte popular nacional, o “EM NOME DO AUTOR”, editado por pesquisadores da UNICAMP que, através do nosso espaço, tiveram acesso a produção de nossos artistas populares possuidores de uma assinatura própria em seu trabalho.
Pela primeira vez, a arte popular catarinense foi incluída numa publicação de abrangência nacional hoje referência básica sobre o tema.
Além de ADELINA MEDEIROS, foram também incluídos nesta importante publicação: ADEMAR MELO, ANTÔNIO MACHADO, MARIA CELESTE NEVES, JOÃO OLÍBIO, VALDIR AGOSTINHO, ETELVINA ROSA, CLAUDIO ANDRADE, também lançado pela Casa.  
                 

Dona Adelina inclusive, quando aconteceu o encontro dos presidentes do MERCOSUL, teve, segundo ela, um dos momentos mais gratificantes de sua carreira: Ao ter suas peças expostas na sala reservada ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem presenteou com uma peça de sua autoria, enquanto participava do um almoço que o ITAMARATI ofereceu aos presidentes para o qual foram também convidados os artistas cujas obras a Casa Açoriana emprestou ao ITAMARATI, para serem expostas nos salas do Resort Costão do Santinho, onde foi realizado o histórico evento.João Olíbio, o mais ecológico dos nossos artistas, sempre teve lugar de destaque na galeria da Casa Açoriana. Numa certa ocasião, procurou-nos querendo desistir, pois as vendas estavam difíceis. Sugerimos que além das colagens bidimensionais, fizesse com o mesmo material objetos utilitários como luminárias. Ele seguiu nossa sugestão e o resultado foi uma fase extremamente bem sucedida tanto artística como financeiramente. João vendeu praticamente toda sua produção de luminárias.

João Olíbio - Ponte Hercílio Luz

Outro artista que a Casa Açoriana lançou e acompanhou em praticamente toda a sua carreira é Neri Andrade. Lembro-me que, na época da criação da Casa, as galerias de arte do centro da cidade não viam com bons olhos a arte Naïf. Com o trabalho desenvolvido pela Casa Açoriana, as obras de Neri passaram a ser valorizados.  Por nosso intermédio, passou a expor na galeria de arte do Copacabana Palace do Rio, antes de o mesmo ser vendido aos novos proprietários.
Neri hoje é um artista com um mercado consolidado, sendo dos artistas catarinenses mais conceituados e procurado por colecionadores. Uma obra sua foi adquirida pela comitiva de Mota Amaral, em visita a Casa Açoriana, enquanto ainda era Presidente da região autônoma dos Açores. Essa obra faz parte do acervo do museu de arte da ILHA TERCEIRA.


Neri Andrade - Costa da Lagoa
Em 1995 a Casa Açoriana realizou a primeira mostra de arte catarinense no exterior. No “Palais de Glace” no bairro da Ricoleta, em Buenos Aires, organizamos uma coletiva a convite de um jornalista argentino. Essa exposição realizou-se no mesmo espaço onde acontece o Salão Nacional da Argentina. Neri foi um dos destaques dessa mostra chamada “A Ilha em Buenos Aires”, que foi um sucesso de público e crítica com artigos no El Clarin, outdoors espalhados pela capital portenha e eventos paralelos que incluíam músicos e escritores da ilha.

Essa mostra foi muito elogiada pelo embaixador do Brasil em Buenos Aires, que recebeu os artistas para um almoço na sede da Embaixada Brasileira.
Maria Celeste Neves, com seus inesquecíveis bordados retratando toda nossa cultura popular, é outra artista que, revelada pela Casa Açoriana, alcançou destaque nacional, assim como TERCILIA DOS SANTOS, artista nascida na região oeste do Estado e que a Casa Açoriana lançou organizando sua primeira individual e expondo suas obras que hoje integram coleções em vários países. Quando conhecemos Tercilia, ela estava expondo num restaurante. Praticamente desconhecida do público, ganhava a vida como manicure.

Tercília dos Santos - acrílico sobre tela

Com o tempo, Tercilia foi ficando conhecida.  Suas pinturas mereceram varias páginas no livro sobre arte Naïf brasileira editado pela Jaques Ardie, de SÃO PAULO.
Em 2014, a Casa Açoriana promoveu uma grande individual intitulada ‘PRIMAVERA DE TERCILIA’ que obteve grande divulgação na mídia, sendo capa dos dois principais cadernos de variedades do Estado. Foi também a Casa Açoriana que indicou Tercilia para ser o tema de uma coleção primavera/verão de uma conhecida grife catarinense de moda.
Recentemente, Tercília foi uma das artistas que participou da série de documentários ALMA BRASILEIRA, dedicado aos mais destacados artistas populares do país, que o CANAL ARTE 1 tem levado ao ar nas noites de domingo para todo o Brasil. Um capítulo inteiro da série foi dedicado a sua obra.
Assim como Neri Andrade, ela também foi premiada numa das edições da Bienal Nacional de Arte Naïf promovida pelo SESC SP em Piracicaba.
A última versão dessa bienal, ocorrida em 2016, teve tamanha repercussão que foi reeditada de março a julho no SESC BELENZINHO, da capital paulista. Essa Bienal de 2016, que entre mil e quatrocentas obras inscritas selecionou cem trabalhos, incluiu uma pintura de Saulo Falcão, outro artista revelado pela Casa, que expôs lado a lado de nomes como FLÁVIO DE CARVALHO, GUIGNARD, CICERO DIAS, VOLPI e vários outros artistas que fazem parte da história da arte nacional.


Saulo Falcão - Gado no Pasto na Neve
Saulo é natural de Sto. Antônio, diagnosticado como esquizofrênico na adolescência, já foi internado dezenas de vezes, mas a Casa Açoriana acreditou no seu talento e estimulou-o. O resultado aí está para ser conferido, através da sua obra.  Ele também participa dessa mostra CANTO DA TERRA, com a obra ‘Gado no pasto na Neve’ que foi selecionada e exposta na Bienal Naïf.
Além das artes plásticas, da escultura, gravura e cerâmica, a Casa estimula e apoia praticamente todas as tradições artesanais de referência cultural. É o caso, por exemplo, da tecelagem tradicional. Três famílias de Gravatal contam, há décadas, com nossas compras mensais, que lhe garantem a continuidade da tradição herdada dos avós.

Maria das Rendas - Carro de Boi
As rendas também foram sempre prestigiadas pela Casa Açoriana que, em 2015, revelou, através de uma individual, o original trabalho autoral de Maria das Rendas, outra de nossas artistas que faz parte da mostra CANTO DA TERRA.
Quando a Fundação Franklin Cascaes, através de sua superintendente, convidou-nos para organizarmos uma mostra que assinalasse a passagem do dia que celebra o saber popular, e para inaugurar sua nova galeria de arte, no vão central do mercado, vislumbramos uma excelente oportunidade para mostrar ao público o alto nível que uma produção artística pode alcançar, quando lhe é dada condições para desabrocharem o talento e a capacidade criativa de cada um.
O trabalho que a Casa Açoriana tem desenvolvido nestas últimas três décadas, cujo resultado de forma resumida evidencia-se no alto nível alcançado pelas obras que formam essa mostra histórica, é uma clara demonstração de quanto o apoio é fundamental para o artista desenvolver plenamente as suas potencialidades.
Dividimos a curadoria da exposição com Lena Peixer, que além de excelente artista tem demonstrado uma competência inquestionável na gestão de espaços culturais.
A mostra CANTO DA TERRA, que permanecerá aberta a visitação até o final de setembro, tem também a participação da ceramista Osmarina, com uma deslumbrante montagem da procissão de Passos.  De Valdir Agostinho, que participa com uma criativa e surpreendente instalação, de Manoel Pereira escultor em madeira que estamos lançando e que vem preencher a lacuna deixada pelo falecimento do nosso outro grande escultor popular, Antônio Machado. Manoel esculpe personagens populares, carros de boi, duplas sertanejas, cavaleiros, com um senso escultórico impressionante, é mais um artista do qual ainda ouviremos muito falar.

Manuel Pereira - Carro de boi com família
Além deles, Nei Batista de Souza é outro artista participante. Nei é o mais requintado e criativo artesão na técnica do papel machê. Seus trabalhos já mereceram mostra individual no MASC. Ele foi um dos fundadores do “Mão de Pilão”, grupo folclórico que nos anos oitenta fez renascer a tradição do boi de mamão na região de Sto. Antônio de Lisboa.
Do “Mão de Pilão” surgiram o premiadíssimo Boi de Mamão de Sambaqui e a própria Casa Açoriana que deu sequência aos objetivos do grupo de valorizar nossas raízes culturais.
Os artistas populares são, por sua natureza, avessos ao discurso, cantam cada um a sua maneira sua terra natal, suas tradições, suas crendices, seus hábitos e costumes. Celebram sempre a integração com a natureza e o meio ambiente. Através de suas obras, podemos perceber a alma de um povo. Cenas, personagens ou narrativas inseridos numa natureza idílica nos propõe uma reflexão sobre a necessidade de criarmos novas maneiras de nos relacionar com a natureza, sem destruir o ecossistema que alimenta a vida no planeta.
Presente na abertura da mostra, o secretário municipal de Cultura sensibilizou-se com nossa proposta de criação de um Museu de Cultura Popular na capital do estado  que pudesse  reunir todo esse precioso acervo.
Torçamos para que esse sonho se realize, pois é fundamental para a identidade de um povo a existência de espaços onde sua alma se revele e a reflexão sobre de onde viemos e quem somos aconteça.

Ney Batista de Souza - avestruz

Ney Batista de Souza - Boi de mamão

Valdir Agostinho - Cavalo 
Valdir Agostinho - Cavalo 


Valdir Agostinho - Cavalo 

Osmarina - Procissão dos Passos

Osmarina - Procissão dos Passos

Ney Batista de Souza - Cavalo

Artistas, organizadores e autoridades

Maria Celeste - Estandarte em homenagem a Casa Açoriana

Etelvina Rosa - Obra reproduzida no Livro "Em nome do AUTOR"

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

CLEA ESPINDOLA- SANTA CATARINA PERDE UMA DE SUAS MAIORES CERAMISTAS



Quem teve o privilégio de conviver com Cléa Espindola, não esquecerá jamais sua personalidade marcante, sincera, doce, inteligente e serena.
Clea foi sempre uma referência importantíssima não só como artista, mas como colega movida por um senso ético e profissional admiráveis. Segura de suas posições, soube sempre posicionar-se com elegância  e equilíbrio  em relação a  toda a problemática que o exercício da atividade artística traz consigo.
Em sua casa atelier, reuniram-se em momentos históricos  as principais lideranças da arte catarinense, sempre acolhidas por ela e por seu companheiro, com o espirito fraterno da perfeita anfitriã que era.

Em sua brilhante trajetória, desenvolveu uma das mais consistentes e criativas pesquisas da arte cerâmica, técnica com a qual contribuiu para o engrandecimento de nossas formas de expressão artística.
Sempre pesquisando possibilidades novas para essa arte milenar, criou diversas séries, dentre as quais se destacam  a dos sapatos cerâmicos,  com os quais ganhou um prêmio numa das primeiras versões do Salão  Nacional Victor Meirelles.
Neste Salão, sua proposta intitulada ‘Poética do Cotidiano’, consistia numa série de gigantescos sapatos construídos em terracota,  reproduzindo os mais diversos tipos de calçados,  desde as tradicionais sandálias havaianas ou tênis, até modelos mais chiques e sofisticados. A  estranheza provocada por essa insólita instalação acabou  por conquistar merecida premiação por sua impactante expressividade.

Lembro-me da sua última individual no MASC, no período em que era administrado por João Evangelista.  Nessa mostra Clea alcançou o ápice técnico e formal de suas relevantes pesquisas. Tratando a pasta cerâmica, os óxidos, esmaltações, formas e texturas, com um total domínio técnico e a mais alta expressividade, realizou uma das mais relevantes  mostras individuais dessa forma de expressão  artística  apresentadas no MASC.

As peças que compunham essa exposição destacavam-se pela síntese formal,  e por um extraordinário caráter escultórico de impressionante beleza.
As obras de Clea  Espindola, nas suas  mais diferentes fases, sempre distinguiram-se pelo acabamento técnico impecável e por uma linguagem marcantemente pessoal.
Entre uma fase e outra,  sempre retomava um dos seus temas prediletos: os calçados.
Com essa temática, realizou uma de suas última exposições, na pequena galeria do Círculo Ítalo-Brasileiro,  onde montou uma instalação composta por dezenas de  delicados sapatos femininos de terracota esmaltada, nas mais diferentes e surpreendentes composições de cores e texturas.


Os vernizes negros, brancos  ou vermelhos, os detalhes de textura de cada obra, os laçarotes, saltos, pompons, etc.,   tudo unia-se numa  féerie  de  sugestões e efeitos.
Com suas séries de sapatos, Clea compunha  crônicas poéticas do cotidiano, onde não estavam ausentes o caráter lúdico, o humor,  a ironia, o fetiche e uma sutil observação sobre o seu próprio conceito de feminilidade.

A poética do cotidiano proposta por suas séries de calçados, ora imensos e de escala surreal, ora delicados  e femininos, alguns inclusive  com aplicações de texturas inspiradas das nossas tradicionais rendas de bilro, fala muito do espírito da autora,  observadora,  inteligente, sensível,  criativa, talentosa e perspicaz.
Além da cerâmica, Clea incursionou também pela arte pública, deixando dois grandes painéis murais, fixados em edifícios da capital. Um deles, inspirados nos botões de roupa, pode ser apreciado num prédio ao lado do Beira-Mar Shopping.
Clea deixa  muita saudade, mas também  lembranças doces  e inesquecíveis, entre quem teve o privilégio  de conhecê-la e conviver com uma artista tão especial e uma colega tão adorável.



sábado, 5 de agosto de 2017

Descaso público com o centro histórico de Santo Antônio de Lisboa




SÓ TOMBAR NÃO ADIANTA


Tombada recentemente pelo IPHAN, a tradicional vila de Sto. Antônio de Lisboa, vem sofrendo um perigoso processo de descaracterização, que se não for freado a tempo comprometera, irreversivelmente,  aqueles valores que tornaram o bairro tão aprazível e único.

A falta de uma normatização que leve em conta a identidade cultural, visual e ambiental do centro histórico, tem permitido as maiores aberrações e as mais absurdas e descabidas interferências, que aos poucos vão desfigurando e poluindo o local.

Placas comerciais colocadas a esmo por todo lado, barracas construídas sobre as calçadas já estreitas, comprometendo não só a estética como a própria segurança dos pedestres, churrasqueiras improvisadas ocupando indevidamente o espaço público, trailers instalados em locais inapropriados, e, absurdo dos absurdos, mesas de plástico e araras com roupa usada, expostas nos finais de semana em plena área tombada sem a mais elementar preocupação estética.


                  Centro histórico de Santo Antônio de lisboa: INACREDITÁVEL!

Essa coluna seria insuficiente para listar todas as mazelas, que incluem também a poluição sonora de um estridente exaustor instalado por um restaurante no centrinho histórico...  Agora, para complementar resolveram fechar a Rua Cônego Serpa todos os finais de semana para fazer apresentações de pagode, mesmo existindo no mesmo local o Clube Avante, que poderia se fosse o caso, sediar as apresentações para evitar os transtornos e perturbações de toda espécie que esse tipo de evento provoca. 

Mas o bom senso infelizmente não tem prevalecido. Por interesses puramente argentários mal camuflados, compromete-se todo o ambiente, descaracterizando-o, retirando-lhe a identidade e o rosto, matando a própria galinha dos ovos de ouro. Se nada for feito, em breve, Sto.  Antônio de Lisboa será apenas mais um não lugar, desfigurado, poluído em todos os  sentidos e sem alma.


 A educação de uma comunidade mede-se entre outras coisas pela maneira como são tratados seus valores, dentre os quais se incluem a estética e harmonia dos espaços públicos.


sábado, 22 de julho de 2017

VIGÍLIA DO CORPO - as artes da presença do Cena 11 no espaço claraboia do masc

Cena 11 - foto: Cristiano Prim

Após a antológica ocupação do Máquina Orquestra, ninguém melhor que o grupo CENA 11 liderado por Alejandro Ahmed, para dar sequência ao projeto CLARABOIA do MASC.

A ativação dos sentidos,  através da percepção dos sons proposta pela vivência multisensorial realizada pelo Máquina Orquestra, no  caso do Cena 11,  acontece e concretiza-se pela ação corporal proposta,  que de forma ininterrupta, busca reinventar nossa percepção do tempo-espaço.

A consciência do próprio corpo e sua posição no espaço, a percepção como estratégia de conhecimento,  a criação de um espaço existencial,  capaz de ser conquistado por cada um a partir da descoberta e vivência  de sua própria corporeidade,  são algumas das características que  distinguem os conceitos operatórios do Cena 11 dos demais grupos de dança.

Seus intérpretes  não se limitam jamais a executar simplesmente uma coreografia  previamente ensaiada e repetida a cada apresentação.  Sua escrita do movimento privilegia a construção de singularidades que acontecem na própria ação que fabrica a temporalidade,  e lhe da um corpo no aqui e agora sem antes nem depois.

A  ocupação-residência  apresentada na Claraboia,  foi pensada especialmente para o espaço onde ocorrem as apresentações. A ação, que utiliza objetos cênicos   e sons característicos das montagens do grupo, propõe-se a criar um ato poético único que pode ter um efeito perdurável se continuar vivo na mente do espectador.

Buscando vivenciar situações a partir da percepção  do local onde vão ocorrer as performances, os integrantes do grupo, partindo do princípio que sempre os norteia, de que o corpo jamais vai estar separado do espaço onde está inserido, criaram uma proposta de OCUPAÇÃO\RESIDÊNCIA para a CLARABOIA do MASC  pautada pelas condições específicas do local.

As apresentações do CENA 11, costumam  evitar os limites e separações entre palco e plateia, para desta forma potencializar um espaço   indefinido que permita uma proximidade física, um estar junto, um livre acesso ao processo  que o grupo criou  de investigar a  própria natureza da dança encarada como forma particular de conhecimento e comportamento do corpo.

A apresentação inicia com a entrada dos  bailarinos-performers, alguns com máscaras   e pinturas corporais. Sentados em   assentos revestidos de negro colocados nos extremos da sala, permanecem por vários minutos em silêncio, imóveis, concentrados e voltados cada qual para sua própria interioridade, de onde desabrocharão na sequência as ações, gestos, sons e gritos primais.

Performando por todo  o espaço da CLARABOIA, misturam-se aos espectadores, envolvendo-os visceralmente no desenrolar das ações com suas descargas impulsivas,  que permitem exteriorizar e fazer aflorar na consciência, pulsões e energias reprimidas no inconsciente.  Num outro ponto da sala, uma  caixa negra recoberta  por guizos sugere um altar estranho e  pulsante e serve de base para hastes   utilizadas na performance.

A   ação do Cena 11 desenvolve-se a partir desse espaço da CLARABOIA,  que transforma-se em espaço existencial.  Em lugar da  assepsia do cubo branco, que utiliza conceitos espaciais tradicionais  e redutores da potência da obra aberta, o que se propõe agora são novos parâmetros como caminho e direção, lugar e centro, campo de ação, dentro e fora.

A experiência sutil do corpo no espaço que o CENA 11 incorpora à suas performances num constante desafiar das leis da gravidade,  convida o espectador  a converter-se  em protagonista.

Suas propostas sempre buscaram o envolvimento da plateia, fazendo com que a mesma não permitisse que o espaço a afetasse passivamente, mas que interagisse tornando-se coautora das ações.

Na montagem da Claraboia, por tratar-se de um espaço diferenciado não existe a separação palco-plateia tradicional dos teatros. Porém, o círculo natural  que os espetadores formam para assistirem a apresentação acaba por recriar  a mesma separação entre público e ação cênica.

Caminhando e desenvolvendo suas performances do centro da cena para o meio do próprio espaço ocupado pelos espectadores, os bailarinos eliminam os limites, aproximam-se e inserem-se na plateia, fazendo com que se absorva e descubra o significado intrínseco das ações e acontecimentos realizados, despertando em cada um  o impulso de experenciar   o seu espaço interior e exterior, caminhando  por ele, tocando-o, ouvindo-o,  sentindo-o  e percebendo-o em toda sua plenitude e potência.

Essa proposta da plateia como espaço  cênico acompanha o grupo desde as suas origens e estabelece uma proximidade, um estar junto que conecta e transforma.

Para Alejandro, mentor intelectual do grupo, a percepção ocorre não só no cérebro mas como um tipo de estratégia cognitiva que acontece no corpo como um todo em sua interação com o ambiente, incluindo leis naturais de sobrevivência.

ADESÃO AO NÃO ESQUECIMENTO  tem a  impactante trilha sonora de Hedra Rockenbach. Logo em seu início, ouvem-se sons graves de percussão sugerindo tambores ou batidas do coração, esses sons mecânicos na sequência da ação são intercalados a estrondos provocados  pelo impacto dos corpos que se arremessam sobre plataformas de madeira colocadas no chão. Essas  quedas características do CENA 11 com os corpos dos bailarinos  desafiando a lei da  gravidade, lembram sempre que é através de nossa relação com seus princípios que percebemos a natureza de nossa  própria existência.

Na ocupação da claraboia,   estratégias, movimentos e ações que marcaram  diferentes espetáculos da trajetória do grupo são citados, mesclados a elementos novos que surgem  evocando a tradição das danças sagradas orientais tais como fragmentos dos giros sufis, catarses  corporais das incorporações dos cultos afro, ou elementos indígenas que insinuam-se no caminhar cadenciado dos bailarinos,  marcado pelo ritmado balançar dos guizos anexados ao corpo.

A inquietação, questionamento, a experimentação tornam a obra de Alejandro e do Cena 11 uma criação permanente, variação continua onde nunca há um fim ou um ponto de chegada.

A ação-performance-ritual que ocupa  a Claraboia do MASC, pautada nos padrões técnicos e estéticos que fizeram o grupo  ser considerado como um dos mais relevantes da cena contemporânea  nacional,  expressa o próprio sentimento  de 'estar no mundo' do grupo, interagindo, questionando, recomeçando e refazendo tudo a cada novo passo.

Alejandro Ahmed  e o próprio Cena 11 que pode ser considerado como uma extensão sua, encarna o próprio mito de Sísifo,  que na sua  eterna ação de resistir e continuar, revela a fonte da criatividade contida no indivíduo, sua atitude heroica demonstra que só através da criatividade humana  as coisas podem mudar. 

Não é nada fácil  e cada um tem que encontrar a sua maneira de não desistir diante de tantas dificuldades. O Cena 11, que foi sempre um grande viveiro de ideias,  através de experimentações centradas no corpo e no seu existir no espaço, encontrou sua  própria maneira de ser e de trilhar um caminho que tem levado a descobertas antológicas, que ressignificam o espaço da dança como  continuação e fragmento da realidade, reinventando nossa  própria percepção de ESPAÇO-TEMPO.





quinta-feira, 29 de junho de 2017

SAULO FALCÃO - Uma arte que nasce da pura invenção!

Gado no Pasto na Neve- Saulo Falcão


Dentre  as mil e quatrocentas obras inscritas na décima terceira edição da  BIENAL NAIFS DO BRASIL 2016, promovida pelo SESC PIRACICABA SP, foram selecionadas cem, sendo uma delas de autoria de Saulo Falcão, artista outsider nascido em Santo Antônio de Lisboa e lançado pela Casa Açoriana, que acompanha todo seu percurso tendo inclusive realizado uma mostra individual de seus trabalhos em 2016.

A Bienal, apresentada inicialmente  no SESC Piracicaba, foi, devido ao sucesso, remontada desde abril no SESC Belenzinho da capital paulista, onde permanecera exposta até julho próximo.

Como artistas convidados participam da Bienal da qual Saulo faz parte,  os artistas: VOLPI, CICERO DIAS, DJANIRA, GUIGNARD, FLAVIO DE CARVALHO, VANIA MIGNONI, JORGE GUINLE, MONTEZ MAGNO, JOSÉ CLAUDIO e vários ouros nomes de igual importância.

A pintura de Saulo intitulada Gado no Pasto na Neve foi incluída no módulo Pictórico da Bienal, definido pela curadoria como representativo  do “desejo pela pintura que se interpõe a narrativa e que desejante, delira.”

Diagnosticado na adolescência como esquizofrênico, Saulo começou a pintar a cerca de dez anos, quando através da Casa Açoriana teve acesso aos pincéis, telas e tintas. Sua produção inicial dividia a tela em planos sobre os quais aplicava as cores chapadas com limites geométricos bem precisos. Aos poucos foi cobrindo as superfícies com sobreposições de pinceladas  gestuais de  forte  carga expressiva deixando-se cada vez mais levar por aquilo que no  livro catálogo da Bienal foi definido como ‘O desejante da pintura’. Quando se deseja, deseja-se o todo da cor, da tinta, da  massa, do escorrimento, do volume, da superfície, do espaço.

Dando vazão, através da arte, as imagens, símbolos, memórias, sonhos, fantasmas e fantasias interiores, Saulo conseguiu, de certa forma, reorganizar o caos de seu mundo interior, conturbado  e desestruturado pela doença. Parou de ouvir as vozes que o atormentavam e de ter os delírios alucinatórios frequentes  que acometiam sua mente perturbada.

Saulo Falcão frente a seus trabalhos em sua primeira individual.

 Não se pode dizer que ficou curado, ainda acontecem surtos agravados pela dependência química, mas a arte sem dúvida auxiliou-o a reorganizar seu centro, vir a tona das profundezas do seu delírio, e ter uma vida mais ou menos dentro dos parâmetros socialmente aceitos.


O vigor e a desinibida expressividade de sua arte, indômita e furtiva, como uma criatura selvagem, incluem sua pintura no que se convencionou chamar de “ART BRUT”, um tipo de arte que segundo o artista francês Jean Dubuffet “é uma arte que nasce da pura invenção e que jamais se baseia, como faz a arte cultural com frequência, em processos que evocam o camaleão o papagaio. “

O impulso primordial do homem de observar, criar e desenvolver seu vocabulário visual pessoal, atestado  por ações que vão desde as pinturas rupestres das cavernas  até os grafites anônimos dos muros de nossas cidades,  enfatizado pela  Arte Bruta,  levou  Jean Dubuffet e os críticos André Breton  e Michel Tapié a fundarem em 1948 a  Compagnie de l´ Art Brut,  com o objetivo de colecionar e estudar esse tipo de arte que até então existira paralelamente ao mundo oficial da arte.

A ênfase dada por Dubuffet á fonte intuitiva e primordial da arte foi compartilhada por figuras associadas à arte informal, ao expressionismo abstrato e ao grupo Cobra.

Um dos integrantes do Cobra, que dissolveu-se em 1951, o belga holandês Corneille chegou a vir a Santa Catarina anos mais tarde, para conhecer pessoalmente a artista brut Eli Heil, da qual adquiriu obras, deixando registrado no livro de presenças da artista um texto onde a considerou  como uma irmãzinha menor de Van Gogh.

As  buscas da completa liberdade de expressão, e da necessidade primordial do homem de expressar seus desejos, fossem eles belos ou violentos, celebrantes ou catárticos, que fizeram Dubuffet interessar-se  por pinturas, desenhos e esculturas feitas por pessoas sem treinamento em arte a salvo das convenções sociais, da formação acadêmica e portanto livres para criarem obras de verdadeira expressividade,  compartilhadas depois  pelos integrantes do Cobra, deram de certa maneira continuidade ao projeto iniciado pelos surrealistas, no sentido de liberar o inconsciente e de subtrair-se ás influências "civilizadoras"  da arte.