quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Santa Catarina – Um Estado sem Memória I

Dentre as manifestações artístico-culturais de Santa Catarina, as artes plásticas, desde Victor Meirelles, foram sempre um dos setores mais relevantes. Sendo uma das maiores economias nacionais, nosso estado deveria e poderia! dar à questão cultural a importância que merece. 
A inexistência de uma secretaria de cultura já demonstra bem o descaso com que o assunto é tratado na esfera oficial. Acoplada a outras pastas, entregue sempre a pessoas sem a mínima condição técnica de desempenhar suas funções, a cultura é sempre colocada como algo secundário e sem importância vital. 
As famigeradas alianças políticas, que servem de sustentação ao governo, leiloam a pasta que engloba a cultura entre si e tratam-na com a ineficácia de quem nada entende do assunto. Conseqüência é o descompasso cultural de Santa Catarina em relação aos estados vizinhos. 

Cais de Florianópolis de Martinho de Haro
Vejamos, por exemplo, o setor das artes visuais: Recentemente, constatei que dois jovens artistas, formados pelo curso de artes visuais da Udesc, ignoravam totalmente o nome do artista Martinho de Haro. 
Segundo eles, nunca tinham ouvido falar sobre o mesmo, muito menos sobre a sua obra. Culpa da Udesc? Dos professores, que tão entretidos em falar das teorias de Deleuze, Foucault, Derrida e outros filósofos franceses, não encontram tempo nem motivação para ao menos citar aos alunos que tivemos dentre os artistas que nos precederam o maior representante do modernismo em Santa Catarina? Na verdade, são diversos fatores que se somam para explicar essa verdadeira idiotia demonstrada por esses dois jovens. 
Um deles é a inexistência de museus que dêem  visibilidade a produção cultural catarinense atual e de outros períodos históricos. Onde é que nossos jovens podem ter contato com a obra de Martinho de Haro, Vicchietti, Meyer Filho, Elke Hering e tantos outros, que dedicaram as suas existências a construir um rico acervo que reflete os valores de uma sociedade que insiste em ignorá-los? Pela falta de uma política de valorização de nossa identidade permanecemos como eterno ‘buraco negro’ no mapa cultural do país. Os esforços para mudar este status-quo de marasmo e inércia, são todos abortados pela falta de visão e perspectiva dos responsáveis pelo poder. Onde foi parar, por exemplo, o Salão Nacional  Victor Meirelles e o Circuito Itinerante de Mostras da Visualidade Catarinense? 
Obra de Ivens Machado
Voltamos à estaca zero. Outro exemplo: Ivens Machado, nascido em Florianópolis e falecido recentemente, era considerado ao lado de Victor Meirelles e Schwanke, como um dos três artistas catarinenses mais importantes de todos os tempos. 
 Essa análise da Fundação Bienal de São Paulo, por certo nunca foi considerada por nossos secretários de “cultura”, que, certamente, nem sabem de quem se trata. Ivens, alguns anos atrás, teve uma grande mostra retrospectiva, percorrendo os principais centros culturais do país. Atualmente, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro realiza também uma grande mostra retrospectiva sua, homenageando a memória desse artista tão vital para arte contemporânea brasileira, cuja obra não foi jamais mostrada em sua terra natal pela alegação dos mesmos motivos de sempre: “- Não tem verba!”- Mas para outras coisas bastante questionáveis, nunca falta dinheiro. 
Os Linguarudos - Obra de Schwanke

Poderíamos elencar centenas de outros fatos que atestam claramente o menosprezo que existe por aqui com nossa memória cultural: Malinverni Filho, por exemplo, teve seu centenário solenemente ignorado. Que custava ao Masc ter trazido até a capital a obra desse grande intérprete de nossa paisagem serrana e editado um livro/catálogo a altura de seu trabalho? São os bens simbólicos, patrimônio imaterial, que nutrem a alma e dão sentido ao futuro. Quando é que Santa Catarina vai despertar de seu sono letárgico, sacudir esse marasmo e dar a cultura e a arte de seu povo o tratamento e a importância que merecem?

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4 comentários:

  1. realidade cultural, que infelizmente não tem espaço, nem a mínima consideração pelos responsáveis públicos! ignoram e nada fazem,
    cargos políticos de quem não deveria ali estar

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  2. realidade cultural, que infelizmente não tem espaço, nem a mínima consideração pelos responsáveis públicos! ignoram e nada fazem,
    cargos políticos de quem não deveria ali estar

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  3. https://drive.google.com/file/d/0B2JC7j86C4VmUUJ1c1pjVGhrd2s/view

    Link - Ensaio sobre Martinho de Haro e Malinverni Filho elaborado em estudo de Teoria e H. da Arte em 2014. Parceria Masc-Udesc

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