sexta-feira, 3 de novembro de 2017

ANASTÁCIA – ' IMPERATRIZ ANTROPÓFAGA': Mais uma Obra Antológica de Fernando Lindote


A imperdível mostra Sensos e Sentidos, que reúne parte da coleção do casal Jeanine e Marcelo Collaço, exposta até março de 2018 no MASC (comentarei no próximo blog), teria como um dos destaques a pintura Rainha Antropófaga,  de autoria de Fernando Lindote. 
Essa obra, contemplada com o disputado prêmio Marcantonio Villaça, encontra-se atualmente exposta em Brasília. Adquirida anteriormente pelo colecionador catarinense Marcelo Collaço, a obra acabou não voltando para Santa Catarina por insistentes pedidoS do crítico Paulo Herkenhoff que considerou imprescindível sua presença na itinerante que ocorre em Brasília. 
Se por um lado é uma pena que o público catarinense não possa apreciá-la de imediato, por outro lado é motivo de orgulho para todos nós o fato de que a representatividade e importância dessa pintura seja nacionalmente reconhecida. Não faltará oportunidade para que num futuro próximo, assim que encerrar-se a itinerância, possamos conhecê-la e admirá-la pessoalmente.
Há algum tempo, Lindote vem fazendo uma reflexão sobre o significado de alguns ícones representativos da identidade nacional, personagens como Zé Carioca, Macunaíma, monumentos arquitetônicos como a Praça dos três Poderes de Brasília, nossas exuberantes florestas com sua exótica flora tropical, imagens de cartão-postal como o Corcovado, o Pão de Açúcar, etc.
Agora, dando sequência a essas indagações sobre ícones da nossa identidade, forjados, fabricados artificialmente ou naturalmente surgidos através dos tempos, Lindote recorre à figura mítica da escrava Anastácia, um personagem recoberto pelo mistério das lendas e mitos que se criaram em torno de sua lendária figura. 
Pouco importa se as informações que chegaram até os dias atuais são historicamente verdadeiras ou não, até porque a história não costuma registrar a existência dos vencidos e oprimidos, preferindo enaltecer a memória dos “heróis” da classe dominante, vitoriosos donos do poder que sempre deram as cartas, mesmo sendo na maior parte das vezes apenas tiranos cruéis corruptos e desumanos. Anastácia é um dos exemplos de resistência contra a os horrores dos abusos, crueldades e desumanidade com que são tratados os seres e povos oprimidos por sistemas como esse em que vivemos. É justamente pelo que ela representa em relação a tanta opressão que sua memória se mantem cada vez mais inspiradora e viva.
As elites do país se sentem incomodadas ao abordar questões relativas à escravidão, e esquecem com facilidade as abominações do sórdido sistema escravagista que durante três séculos existiu no Brasil, cuja riqueza esse povo vilipendiado e injustiçado ajudou a construir, mesmo tendo sido sempre totalmente impedido de desfrutar de seus benefícios o  que de maneira geral continua ocorrendo  até hoje.
Para milhões de criaturas excluídas, a figura de Anastácia representa os sofrimentos e a luta do povo negro que continua resistindo às mais diversas formas de discriminações físicas e psicológicas.
A máscara de flandres que carrega na boca e a algema de ferro grudada no pescoço, representam bem a brutalidade bestial dos algozes que fizeram de sua vida um martírio.
Com seu olhar firme, penetrante, ANASTÁCIA demonstra que mesmo em seu martírio não se deixou vencer pelas perturbações e crueldades do mundo. O seu semblante seguro reflete a força e o vigor de sua superioridade interior, proveniente de um coração amoroso impermeável à maldade a qual foi submetida. Anastácia representa o sonho divino de uma existência humana mais digna na terra e é nesse sentido que é venerada como verdadeira santa pelo povo que vê nela uma força capaz de fazer curas, milagres, graças, tais são as vibrações desse poder que seu semblante transmite. Poder oriundo da bondade, da integridade, da fé e da certeza que seu povo um dia conquistará o direito de crescer junto com esse país, usufruindo plenamente de tudo de bom que ajudou a construir.
Gloriosa em seu manto protetor, Anastácia vivenciou o universo da dor, dos pesadelos, crueldades e perturbações alheias. Tentaram fazer dela uma escrava humilhada e vencida, mas não conseguiram derrotá-la. Ela, em sua grandeza íntegra e heroica em momento algum comportou-se como tal. Eternizada no coração do povo, digna, altiva e majestosa, Anastácia, com requintado buque de orquídeas sobre a cabeça, ressurge na tela de Lindote, luminosa e coroada como a legítima IMPERATRIZ DO BRASIL.

Um comentário: