quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A Superfície - Última Crítica escrita por Janga, inédita, sobre a obra magistral de Ricardo Hoffmann.




Janga recebe Ricardo Hoffmann na Casa Açoriana, e conversa apaixonadamente sobre Superfície.

Lançado em 1967 pela Editora GRD RJ  e reeditado em 1978 pela Edições Antares RJ, o livro “A SUPERFÍCIE”  de Ricardo L. Hoffmann já completou meio século desde sua primeira edição. Marco da literatura catarinense e nacional, está a merecer uma reedição urgente  que permita aos leitores da nova geração, conhecerem uma das melhores incursões da literatura nacional na restrita área da ficção intimista   e subjetiva,  voltada mais para a reflexão sobre questões existenciais básicas de caráter universal, que para ações exteriores menos relevantes.
O  tema do livro são as transformações por que passa a mente do jovem de ascendência alemã Heinz,  à medida em que vai entrando em contato com outras possibilidades vivenciais diversas daquelas ditadas pela mente rígida, pragmática e prosaica do pai autoritário e castrador,  que como o pai de “Cartas ao meu Pai” de Kafka, assombra e paralisa o núcleo familiar de Heinz, constituído de uma mãe submissa, uma irmã amedrontada e dois irmãos infelizes e frios como todos os outros. O clima pesado,  cheio de culpa, sem afetividade nem alegria utilizado  pelo autor para descrever o ambiente familiar de Heinz, faz lembrar a atmosfera sinistra do filme “Fita branca”  e o desespero existencial das obras de Lars Von Trier.   Trata-se de um mundo sem perspectiva nem esperança, pautado pela mediocridade expressa nas inexistências pasmosas  de cada um dos infelizes personagens.
Buscando preparar-se para  um concurso da marinha sugerido pelo pai, para o qual Heinz não tinha a menor aptidão, o jovem procura Beto,  quase da mesma idade, e começa a ter aulas de geografia e matérias congêneres. Os pais de Beto eram artistas diletantes,  que pintam por pintar  aproveitando as horas vagas que sobram após o exercício de seu trabalho principal. Beto da mesma forma  pintava  de vez em quando, mais como passatempo que como compromisso  existencial. Heinz  ao saber que seu amigo pintava, convida-o para  conhecer as pinturas  (cópias de folhinhas) que fazia escondido do pai.  A partir dai, cria-se o único laço de amizade deste ser solitário e sem jeito de lidar com as circunstâncias do dia a dia.
No transcorrer da narrativa, Hoffmann vai construindo, com tintas fortes e carregadas, um grande painel expressionista acentuando contrastes exacerbados de luz e sombra, distorções, detalhes  e alusões  metafóricas a “superfície de horrores que se chama vida por onde correm, sempre presentes por baixo da superfície aparente das coisas, o medo,  a aniquilação e a morte”. Essas imagens sucedem-se num ritmo cada vez mais dinâmico definindo a  atmosfera sombria e perturbadora do livro.  Diálogos magistralmente construídos   onde o autor desenvolve seus pensamentos e reflexões sobre morte-vida, arte como proposta existencial de libertação e plenitude versus o mundinho familiar pequeno  burguês com sua mesquinha escala de valores, intercalam-se de forma  vigorosa e  expressiva,  induzindo o leitor a vivenciar  uma profunda  imersão na obra, lendo-a sem parar até chegar ao trágico final. Final esse já pressentido por Beto, o narrador, que percebe  através da observação aflita das pinturas que Heinz começou a criar após sua volta do Rio de Janeiro, o quanto seu amigo estava afastando-se cada vez mais da realidade que o cercava, entregando-se   a mais absoluta solidão e torturada subjetividade.
Esse processo  que o autor esmiúça no segundo capítulo intitulado “O desenvolvimento mórbido”,  já estava latente desde a infância de Heinz mas eclode de maneira mais radical após seu retorno do Rio de Janeiro onde ficou por dois anos servindo o exército e frequentando cursos na escola de Belas Artes. Heinz volta a sua cidadezinha  totalmente desencantado com o que descobriu, confessa a Beto que “tinha conhecido a vida”.
A primeira atitude que toma ao retornar é abandonar abruptamente o  lar materno e ir morar num pardieiro onde instala seu atelier improvisado  em meio a ruinas e escombros,“buscando fora de si, do espírito fecundado pela vida da família até o limite do possível o resto, aquilo que a casa dos  país  não pode dar, porque não é mais o alimento, mas a realização individual que vem depois do alimento precedendo a morte”.
Nas visitas de Beto ao estúdio miserável  de Heinz,  os dois conversam sobre o processo da criação artística aprofundando o tema, definindo segundo uma concepção romântica o que seria a arte,  o artista e o processo criador. Num destes diálogos afirma Heinz: ”Uma tela é uma superfície. Debato-me na superfície dos horrores que se chama vida e deixo que meus gestos sejam reflexos espontâneos das impressões que ela me causa é só isso.” Mais adiante complementa:  “Tudo é uma questão de medida, de intensidade. E uma vez que se descubra a validade do princípio não sei porque não levá-la ao extremo bruscamente, fazendo o tempo contrair-se e dando um salto (quando somos atraídos a isso) diretamente dentro do objeto.”
As relações entre vida e morte, luz e  sombra,  arte e vida  permeiam  todas as páginas  do romance.
  A família de Heinz fechada e  incomunicável, vivia sob a opressão do velho  Holtz,  patriarca implacável que a respeito da arte vociferava : “-O perigo está em que adolescentes sonham viver destas coisas (da arte), porque ai tem o clima de ociosidade e liberdade  enquanto  são filhos de família e vivem às custas do pai. É perigoso pensar que isso pode durar a vida toda.’’
Heinz ao voltar  a sua cidade  e decidir viver plenamente sua liberdade representada pela criação da sua arte, afirma para Beto que: “Tivera  a coragem miserável de começar a fazer aquilo que sonho em vão.”
Passando a viver num barraco, dedicando-se totalmente a sua arte, Heinz tornou-se a vergonha do pai que mesmo alcoólatra mantinha seus pruridos burgueses e envergonhava-se  junto aos amigos quando se comentava sobre Heinz. “Assim ele, este bicho  absolutamente iníquo pelo qual todos deviam sentir vergonha, uma vergonha coletiva- social, pois  ele de uma forma ou de outra parecia mesmo perdido para o mundo, para os próprios sonhos, ao mesmo tempo um aborto vivo locomovendo-se num ambiente  ultra pessoal que criara de repente, rapidamente, de tormentos para os quais jamais haverá repouso, fim e nem sequer houve começo.”
Heinz  nas palavras do autor, passou assim após ultrapassada a tempestade dos vinte anos a “viver ancorado abruptamente na baia do desespero.”
Ricardo Hoffmann criou com  Heinz o personagem mais completo e apaixonante da literatura catarinense, esse jovem angustiado em busca da essência do seu ser e da arte que a expresse,  pode ser colocado ao lado   dos personagens de Herman  Hesse com sua procura radical  do auto conhecimento  e de um sentido mais profundo para  a existência.
Na literatura catarinense vamos encontrar  um paralelo com HEINZ  no Araldo, personagem inesquecível e pungente do EVOCAÇÕES,  prosa poética de  Cruz e Sousa. No poema denominado “Nirvanismos”   Araldo, ‘peixe fora d ‘água’ desajustado e sem lugar numa sociedade mercantilista prosaica e hipócrita, impossibilitado de conviver com seres  “de ventre cheio e cabeças vazias”, afasta-se do convívio humano adentrando cada vez mais   na escuridão das florestas, onde como animal solitário  por todos desprezado acaba  desintegrando-se, sumindo como miragem sem deixar rastros.
Heinz vai buscar na fria escuridão das águas barrentas do rio que atravessa a sua aldeia o mesmo refúgio  e a mesma paz que Araldo foi buscar nas  impenetráveis  florestas. Paz, acolhimento e aceitação que não encontraram  entre seus iguais. Representação simbólica das forças do inconsciente que ambos decidiram  ouvir, tanto o rio como a floresta tornaram possível para Heinz e   Araldo, embrenharem-se  cada vez mais profundamente  nos poços e emaranhados de suas forças intuitivas até desaparecerem por completo.
        A grandeza trágica de personagens  como HEINZ, que assumem intuitivamente  os riscos existenciais da entrega  aos seus sonhos em busca de sua liberdade, da superação dos limites impostos pelo cotidiano prosaico, medíocre e mesquinho proposto como padrão a todos  de forma cada vez mais inexorável, encontra nas páginas de “A SUPERFÍCIE” uma das suas abordagens mais impactantes, brilhantes e bem arquitetadas.
 A construção  do livro é exata em cada detalhe. No capitulo final  intitulado “No Terceiro Dia”, a atmosfera expressionista predominante em toda a narrativa chega ao paroxismo. Numa cena do capitulo anterior, Beto presenciara  a chegada de uma mendiga com transtornos mentais que chega ao estúdio de Heinz onde costumava dormir segurando seu saco de trapos. Essa cena digna de uma xilogravura de Goeldi, é um preâmbulo para o que está por vir. Nas páginas finais,  a  narrativa assume um ritmo frenético, quase cinematográfico, pela riqueza de imagens e detalhes intercalados com a ação dos personagens que dirigem-se para  as barrancas do rio onde se supõe que estaria o corpo de HEINZ desaparecido há três dias.
Com agilidade de câmara  e edição de um thriller de horror e suspense,  detalhes e cenas se superpõem-se  num clima de pesadelo. Numa  luz crepuscular que envolve os vultos dos personagens, movendo-se  entre a escuridão úmida da vegetação  e das barrancas ribeirinhas, as águas barrentas do rio refletem as  lanternas de querosene recém acesas nas barcaças que deslocam-se com varas e redes procurando em vão o suposto cadáver.  Os trilhos do trem que tem que ser atravessados para chegar ao rio, o movimento  dos vagões manobrando, o apito do trem que se aproxima, tudo se entrelaça numa atmosfera sinistra,  digna do desespero e medo que se desprende das páginas sombrias do romance “No Coração das Trevas” de Joseph Konrad.
Movendo-se neste clima  tétrico,  o chefete da estação de trem,  com seu boné encarnado  e os galões dourados de seu uniforme, querendo estender seus domínios até as margens do rio, ordena a seus subalternos que barrem  o aceso de curiosos que tentavam se aproximar do local para, segundo o chefe, “gozarem  com o espetáculo da dor alheia”. Nos vultos que movimentam os barcos está o próprio velho Holtz, pai de Heinz, de certa forma responsável pelo que aconteceu,  ou se supõe ter acontecido, com o filho que já nem via mais, envergonhado por sua decisão de viver  para pintar o que lhe desse na cabeça.
A certa altura das buscas, com a noite chegando o pai diz : “Ele não está aqui. Fugiu da cidade tenho certeza. É inútil continuar procurando no rio.” Ao que o chefe da estação responde,  falando o que todos  os presentes estavam achando: “-O senhor desejaria que ele ainda estivesse fugindo do senhor como vinha acontecendo, mas ele fugiu, refugiou-se definitivamente. Se fosse possível o senhor o seguiria até o inferno e estaria sempre seguro de suas razões, de sua justiça e de seu direito. É tarde demais para trazê-lo de volta. Nem o corpo o senhor encontrará, nem sequer o corpo.”
          No texto final, Beto dirige-se ao velho Holtz que   recorreu ao seu  depoimento tentando mitigar a sua culpa:  “-Ele vinha se desligando de todos nós há muito tempo, continuava ali com o corpo, mas isso não é tudo, qualquer pessoa sabe disso. Fugindo terá praticamente morrido. O senhor precisa compreender que não faz nenhuma diferença de antes. Há muito que ele estava se libertando de nossa grosseria gradativamente.”
Esse é o epílogo dessa obra magistral  que merece ser lida por todos. Tratando de questões vivenciais,  aborda a dor do existir com a mesma perplexidade e paixão de Clarice Lispector, refletindo sobre a criação artística, sobre o processo de construção da obra  de arte,  sobre o quanto isso exige do criador, contrapondo a liberdade, a criatividade, a poesia ao prosaico senso  pequeno  burguês,  que não está nem ai para as coisas do espírito, Ricardo Hoffmann  com um texto a altura dos grandes autores  da literatura mundial, criou uma obra de sentido universal,  que além da sua qualidade artística e literária, funciona como um dos mais contundentes libelos contra a alienação do ser em relação ao  sistema e  ao cerne de sua própria existência, cujo sentido só ele pode descobrir e cuja plenitude só ele pode realizar.





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