domingo, 21 de maio de 2017

Descontraída e contagiante 'joie de vivre' de HUGO RUBILAR







Hugo Rubilar, artista chileno  que morou por vários anos em Paris, radicou-se há várias décadas em Florianópolis, cidade que escolheu para montar seu atelier.
 Seu temperamento extrovertido e sua personalidade  original  fazem com que sua presença performática  destaque-se nos eventos dos quais participa. Sua arte comprova o acerto da máxima de Millôr Fernandes que afirmava “o estilo é o homem”.
 Suas pinturas,  goste-se ou não, são um fiel reflexo de sua autêntica, leve e divertida maneira de ser.            
Sociável    e festeiro, é presença assídua nos principais eventos socioculturais  locais, sendo uma figura muito querida no meio artístico da capital catarinense.

 Sua enorme produção,  de caráter predominantemente gráfico, consiste basicamente  em pinturas  estruturadas a  partir de planos de cores delimitados por linhas. São essas linhas que funcionam como as principais geradoras das imagens, e como organizadoras e definidoras do próprio espaço pictórico. Seu estilo tem suas matrizes no movimento da Pop-Art dos anos sessenta, revisitados e adaptados as suas próprias necessidades expressivas.
 No tratamento divertido e bem humorado  das imagens que utiliza, nos harmônicos planos de cores chapadas, na inserção de textos e  nos detalhes,  verificam-se similaridades com as soluções gráficas das histórias em quadrinhos (HQ), dos desenhos de animação e do design publicitário.


Essa nova figuração Neo-pop,  que ao contrário da tradição das escolas modernistas, que desenhavam  a partir da observação do modelo, utiliza imagens de terceira geração retiradas da mídia, reflete sob medida  a maneira de ser do autor em cujas obras percebe-se também a descontração jovial dos grafites e o humor dos cartuns.
Apoiadas estruturalmente no traço, algumas de   suas obras, pelo predomínio  do desenho narrativo e pela importância secundária  atribuída a cor,  possuem  clima marcadamente  anedótico. Nelas, as linhas definidoras dos planos assumem o papel principal, e  passam a ter o caráter de uma escrita orgânica, que se faz no encontro das superfícies e corpos.
 Com um traço muito peculiar, seu desenho que flui de forma aparentemente espontânea, é ao mesmo tempo  simples,  elaborado e sofisticado.
 Tendo como tema objetos e cenas do cotidiano, cria imagens divertidas e descoladas,   não abrindo mão nem mesmo de alguns ícones neo-hippies como mandalas de elefantinhos, peixes,  flores, etc.
 São muito interessantes e divertidas suas pinturas de mesas postas com seus pratos e talheres vistos de um plano aéreo. O vasto repertório das imagens que utiliza inclui desde bicicletas, motos, animais domésticos, casais de namorados, plantas exóticas como os cactos do deserto de Atacama até  as prosaicas sandálias de dedo ou os utensílios de cozinha que, reinterpretados por sua  ótica particular, adquirem  toda uma nova aura e poética visual.
 



Em suas obras mais representativas, composições equilibradas, soluções gráficas,  elegantes e bem articuladas espacialmente,  criam ritmos dinâmicos enriquecidos pelos contrastes de planos de cores  sensuais e vibrantes.
 O tratamento das superfícies, como acontece nos  affiches, recorre a cores chapadas que assumem totalmente a bidimensionalidade do  suporte, sem preocupações com profundidade e volume. Nos esquemas cromáticos, predominam por vezes soluções monocromáticas, ou valores da escala  média de tons com suas nuances suaves de cor  e tonalidades pastéis.
  outras obras mais ousadas, exploram os aspectos ornamentais e sensoriais das  cores de cromas saturados, criando grandes planos de superfícies visualmente impactantes recobertas de vermelhos, azuis ou amarelos luminosos.
 Por vezes, restringe-se basicamente ao preto e branco com pequenas notas de cor, acentuando e exacerbando o grafismo e a síntese formal. 
 Em pinturas de sua produção mais recente,  Hugo adota um tratamento diferenciado mais gestual  e solto, deixando fluir as pinceladas e libertando a cor das amarras do  desenho. 



Não dá ainda para afirmar se seria o início de uma nova fase do artista, ou se trata apenas de simples experimentações. O certo  é que revelam domínio do métier e abrem amplas possibilidades de renovação, caso o artista decida trilhar caminhos diversos daqueles que caracterizaram suas fases anteriores, mais voltadas para linguagens próxima a ilustração.
 Lirismo, irreverência, descontração e humor, são elementos sempre presentes nas criativas obras  de  Hugo Rubilar, cuja fluidez de formas e linhas articuladas no espaço com requintado sentido gráfico e ornamental, expressam com propriedade a singular personalidade artística do autor, propondo-nos  compartilhar sua feérica alegria de viver.



segunda-feira, 15 de maio de 2017

A Casa Açoriana abre as portas do mundo mágico de FREEKJE VELD






Nascida e criada na Holanda, formada em design gráfico na Academia de Artes de Utrecht, Freekje Veld mudou para o Brasil em 1997 e reside atualmente em Sto. Antônio de Lisboa. Ilustrou vários livros didáticos e de ficção infantil e juvenil para editoras europeias e brasileiras.

A partir de dezembro de 2016 expõe seus desenhos e assemblages na galeria da Casa Açoriana de Sto. Antônio.

Grande sucesso da temporada de verão da Casa Açoriana, Freekje teve suas obras disputadas por colecionadores que adquiriram praticamente tudo que estava exposto. Assim, uma individual que a Casa pretendia realizar em junho próximo com seus trabalhos, teve que ser adiada.

Requintadas, poéticas e originalíssimas, suas peças caracterizam-se pela extraordinária sensibilidade para com os materiais, criatividade e inventividade sem limites. A atmosfera peculiar das obras surpreende e encanta, fascinando o espectador com sua riqueza de detalhes minuciosos.


 Justapondo fragmentos de objetos de madeira, porcelana ou metal, ou remontando num novo contexto ferramentas oxidadas como enxadas, picaretas, foices, limas ou machados, Freekje cria também pequenas cenografias onde as cenas se desenrolam. Muitas das peças se movimentam a partir da manipulação de minúsculas manivelas acopladas aos trabalhos. Ao acionar essas manivelas, o espectador faz movimentar as engrenagens constituídas por roldanas ou rodas dentadas, embutidas no interior dos trabalhos, que imprimem movimento as figuras. Esse aspecto cinético reforça o clima lúdico, humorístico e poético das preciosas miniaturas.
Em algumas peças de maior formato, impõe-se o caráter escultórico obtido através da articulação espacial muito bem arquitetada dos elementos compositivos utilizados.



O humor nonsense e a atmosfera onírica dos trabalhos de Freekje, lembram por vezes o clima fantástico das obras de René Magritte.

As referências cultas presentes nestas obras aliam-se à desenvoltura com que a artista transita por alguns dos movimentos mais marcantes do modernismo. São perceptíveis ecos do surrealismo, da arte povera, da arte cinética de Tinguely, da arte fantástica, dos ready made e, sobretudo, das assemblages.

Freekje, com sua linguagem sui generis abre as portas de um mundo mágico que tal como o buraco pelo qual cai a Alice de Lewis Carroll, leva a um espaço cuja dimensão mágica nos propõe e permite vivenciarmos as delícias de um mundo  encantado, cuja lógica foi invertida e transformada pelo poder da imaginação  em pura poesia visual.




























domingo, 7 de maio de 2017

A surpreendente cerâmica de SAMUEL CASAL


          Santo Antônio de Lisboa, já consolidado pela qualificação dos seus espaços de arte mais representativos como um dos principais polos culturais da capital catarinense, passa a ser também uma importante referência no campo da produção e esmaltação de peças cerâmicas de caráter artístico cultural.
. No Atelier Vineli, dirigido inicialmente pelo mestre artesão português Vitor Alves Francisco, verdadeiro virtuose das técnicas e tradições ibéricas, foi transmitida a sua filha Lana, que o auxiliava na confecção das peças e a seu assistente Fabiano Adames a riqueza deste conhecimento. É ali nesta oficina, que  está sendo desenvolvido, pela nova direção,  um dos trabalhos mais requintados, personalizados e marcantes na área da cerâmica.
Vitor e Lana voltaram para Portugal, onde reinstalaram seu atelier inicialmente em Sintra e atualmente em Cascais. Com a viagem do mestre, Fabiano Adames, seu discípulo, passou a ser o proprietário da empresa, assumindo a direção do espaço.
Numa feliz conjuntura, Fabiano decidiu compartilhar os trabalhos de criação da oficina com o artista plástico Samuel Casal, com o qual fez sociedade. Samuel trouxe em sua bagagem a experiência de xilógrafo e designer gráfico, cujas obras estão entre as mais representativas produzidas atualmente no Estado.
Recentemente, uma de suas matrizes sendo processada foi utilizada como abertura da novela “Velho Chico”, da Rede Globo.
Seu estilo inconfundível alia o requinte gráfico a uma impactante linguagem que transita por um universo fantástico, povoado de seres que nascem das mais profundas regiões da psique. Por vezes, alguns personagens de suas obras parecem surgir das páginas surreais dos “Contos de Maldoror” de Conde de Lautréamont, ou do clima fantástico das pinturas do artista mexicano Rufino Tamayo



          A constante tensão entre vida e morte com seu pathos, presente também nas tradições da gravura mexicana de Posadas, permeia as criações gráficas de Samuel, que agora, transpostas para a cerâmica, encontram nas formas e superfícies do novo suporte  efeitos que acrescentam aos temas, além da  sensualidade das cores esmaltadas, os aspectos táteis  sensoriais da matéria. O resultado são peças singularíssimas, portadoras de grande poder de comunicação e fascínio.
Artista de muitos recursos, Samuel Casal, além da pintura, do desenho e da gravura, domina as linguagens da computação gráfica com as quais poderia, se quisesse, executar suas obras.  Mas, como ele mesmo afirmou, prefere preservar aquele toque mágico que somente a mão do homem consegue imprimir. Suas cerâmicas pensadas e executadas uma a uma, utilizam recursos técnicos desenvolvidos por Fabiano para adaptar as características das peças pintadas e esgrafitadas ao estilo desse singular artista.
Ao visitar a nova fase do atelier Vineli, lembramos  da contribuição que Picasso deu para os ceramistas da Provence. Em Vallauris, ao pintar as peças produzidas pelos oleiros da região, Picasso imprimiu-lhes a marca da sua originalidade, tornando-as mundialmente conhecidas.
Nas devidas proporções, a feliz junção da técnica com o talento que transparece na produção do atelier de Fabiano e Samuel também revitaliza, renova e potencializa a tradição da cerâmica catarinense, trazendo uma nova concepção da criação e execução de obras que, pela sua expressividade, deixam de ser apenas objeto de caráter ornamental, decorativos ou simples bibelôs, transformando-se em genuínas obras de arte portadoras de todas suas potencialidades e significados.




domingo, 30 de abril de 2017

27 de Abril de 2017/Reunião Histórica - O Renascimento do MASC



O pronunciamento do administrador e curador do MASC Josué Mattos, no encontro  histórico do dia 27 de abril  de 2017,  inicia toda uma nova etapa para a arte catarinense,  que passa a contar com uma liderança de indiscutível capacitação para fazer  com que o principal museu de arte de Santa Catarina desempenhe plenamente suas funções.
Uma série de fatores uniram-se e agora, felizmente, as coisas tomaram outro rumo e  parecem que vão mesmo  mudar.  O resultado mais imediato dessa mudança já pode ser sentido na maneira como a FCC  se fez presente com toda sua equipe gestora na reunião convocada pela nova direção do MASC,  que reuniu artistas, críticos, jornalistas e intelectuais praticamente lotando a plateia do cinema do CIC para discutir pela primeira vez  em público o destino e  o papel do nosso principal museu de arte.
Com pronunciamentos claros, objetivos,  sem as desculpas e os nhem-nhem-nhem de sempre, a nova direção da FCC soube admitir os erros que provocaram as recentes polêmicas envolvendo os destinos do MASC, comprometendo-se a superá-los.  Na oportunidade desse encontro, prestigiado pela presença de toda a equipe da FCC, ao dialogar com o público presente, Josué Mattos mostrou que não é apenas um curador de reconhecida competência, mas um gestor que sabe pensar os caminhos a serem trilhados para atingir os objetivos a que se propõe como administrador.
Dentre  os diversos tópicos abordados em seu pronunciamento, merece destaque a ênfase que deu ao fato de que o MASC foi criado não por iniciativa do poder público mas sim por toda uma geração de artistas comprometidos com a modernidade que não mediu esforços para deflagrar um processo de atualização da arte catarinense  até então  parada no tempo e no espaço. ASSIM, CONFORME  AFIRMAMOS EM TEXTOS  DESTE BLOG, JOSUÉ REAFIRMOU EM SUA FALA QUE O MASC PERTENCE AOS ARTISTAS CATARINENSES E AO PÚBLICO QUE O PRESTIGIA!  Ao poder público, que depois  oficializou a criação do museu de arte encampando a ideia do grupo de artistas considerados meio malucos na época, cabe respeitar  essa vocação de origem, jamais repetindo  o que fizeram recentemente, entregando-o  a leigos, como se tratasse de  apenas mais uma repartiçãozinha qualquer. Cabe aos artistas e as suas associações de classes   ficarem atentos, não permitindo que essa insensatez e desrespeito se repitam  jamais na nossa história.
Mas voltemos  ao período de criação do MAMF (Museu de Arte Moderna de Florianópolis)  pelos jovens do Grupo Sul,  embora como o próprio Josué citou, o modernismo tardio que chegava a Santa Catarina no final dos anos quarenta já tivesse uma defasagem de origem em relação as vanguardas internacionais, em termos de Brasil a semana de arte moderna representou não obstante  isso, um avanço incomensurável em relação ao tipo de arte que se praticava no país, e de certa forma criou uma maneira peculiar de pensar, revelando sua própria versão de modernidade.  Ao chegar a Santa Catarina, essa preocupação inicial do modernismo com a questão da identidade nacional, acabou estimulando alguns  integrantes do GAPF (Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis)  a buscarem nos temas regionais uma suposta identidade catarinense.
De início, rejeitados pelo  público e pela sociedade local  (um colunista social da época chegou a jogar milho no espaço de uma exposição do GAPF para ridicularizar os galos do genial Meyer Filho), os artistas plásticos surgidos a partir do Grupo Sul, da mesma forma com que seus colegas escritores tiveram que enfrentar as paliçadas dos parnasianos que se abrigavam na Academia  Catarinense de Letras, tiveram, por sua vez, que desafiar e enfrentar o anacronismo dos cânones acadêmicos vigentes na sociedade local.  Aos poucos, o público foi se acostumando, entendendo e aplaudindo. Criou-se então uma nova tradição de figuração lírica modernista regional que a crítica paranaense  Adalice Araújo com sua tese de doutorado nos anos setenta, vai intitular de mito-mágica. Nessa tese  brilhante, Adalice fala sobre a existência de um espaço catarinense cujas peculiaridades refletiam-se nas obras de  nossos artistas mais representativos da época.
Até ai tudo bem, mas considerando que estávamos em plena vigência da pós-modernidade, as questões  a serem encaradas já eram outras bem diversas daquelas propostas pelo Grupo Sul nos anos quarenta. Fiz parte, juntamente com Max Moura, Jayro Schimidt e outros da primeira geração pós-moderna catarinense que surgia no período do final dos anos sessenta. A história repetiu-se, fomos hostilizados, tachados de malucos e até proibidos de participar dos vernissages do MAMF. Eu e Max  inclusive fomos impedidos de expor na única galeria da cidade que pertencia a radio Diário da Manhã. A exposição minha e do Max que já tinha ido residir em São Paulo, só ocorreu pela intervenção de Carlos Humberto Correia que nos cedeu o hall do TAC para que a mostra pudesse acontecer.
Como estávamos propondo uma linguagem nova para os parâmetros locais vigentes, provocamos ira e indignação que o tempo transformou em reconhecimento.
Quanto mais provinciano é um ambiente, mais ele resiste ao  novo e ao que vem de fora, talvez por um medo inconsciente de perder sua própria identidade.
Atualmente, ao menos a capital do Estado mudou, tornou-se mais cosmopolita, mais informada, menos fechada sobre si mesma. Mas ainda existem grandes focos de reação e de resistência ao que vem de fora. Prova disso é a desconfiança de alguns quanto às intenções do novo curador do MASC.  Apesar de os planos que Josué Mattos já traçou nesse pouco tempo, expostos  com objetividade e clareza no encontro do dia 27, demonstrarem claramente  o compromisso com  a valorização da arte catarinense e a compreensão de suas especificidades regionais e históricas, ainda tem gente  duvidando do acerto de suas propostas. O tempo esclarecerá essas  dúvidas.
 Já abordando outra questão e respondendo a pergunta de uma jornalista sobre a necessidade urgente de criação de um conselho consultivo, ele foi bem feliz  ao questionar em sua resposta a forma como editais são analisados as pressas por comissões que tem no máximo três dias (por vezes apenas uma tarde) para  analisar e julgar as centenas de  propostas dos concorrentes a cada edital.
 Falou também da necessidade de serem criadas outras formas de participação que evitem os constrangimentos de artistas com décadas de percurso terem que se submeter aos apressados pareceres das famigeradas comissões seletivas,   bem como de substituir essas apressadas avaliações por uma equipe de pesquisadores que sem pressa e com profundidade possam proceder  a uma pesquisa de trajetórias, percursos, poéticas e criação de linguagens por parte dos  artistas propositores.
Uma vez validada a proposta, seria dada carta branca e uma ajuda de custo ao propositor para executá-la . Essa forma mais adequada já colocada em prática   por varias instituições funciona muito melhor que esses sistemas  puramente burocráticos que obrigam os artistas a preencherem  um monte de fichas, pagar taxas e a taxas para no final das contas terem seus  trabalhos  avaliados  em questão de minutos por quem em geral desconhece totalmente sua trajetória.
Quando se trata de arte contemporânea, não é mais possível utilizar os mesmos critérios que   se utilizava para analisar por exemplo a qualidade de uma escultura, pintura ou desenho. Uma obra aberta precisa ser avaliada em todo seu processo de criação, sua poética, é necessário  avaliar a coerência  e relevância das questões propostas, adequação da linguagem utilizada  e muitos outros  aspectos que exigem sobretudo  pesquisa e tempo para serem analisados. O conselho consultivo  de um museu é importante para auxiliar nesse processo, para propor estratégias e dialogar com o curador  mas nunca para engessar  ou burocratizar suas decisões.
Conversando com alguns artistas, percebi uma preocupação com a possibilidade de que a nova direção do MASC privilegie  apenas artistas do eixo Rio-São Paulo deixando a arte catarinense em segundo plano. Pelo que ouvimos  nesse primeiro encontro com os artistas, essa preocupação parece-nos  infundada e improcedente. Josué Matos possui uma consciência bem clara da sua responsabilidade como mentor intelectual do principal museu de arte de Santa Catarina e temos certeza  que saberá desempenhar sua novas funções com o mesmo brilho com que vem exercendo seu papel de curador, que já lhe conquistou o reconhecimento   nacional. Isso ficou bem claro na decisão de iniciar a programação de sua gestão mostrando nas próprias salas do MASC a coletiva de  jovens artistas que através dela protestaram contra a não continuidade do Salão Nacional Victor Meirelles, que bem ou mal era uma da poucas oportunidades para nossos artistas e público terem um contato direto com a produção contemporânea nacional, ao mesmo tempo que dava visibilidade para a arte catarinense da atualidade. Caracterizada pela experimentação e pesquisa, essa exposição organizada pelo Coletivo NaCasa, faz com que o MASC retome seu  papel  fundamental de tornar-se um espaço que estimule a reflexão, o questionamento e o debate permanente sobre questões básicas da contemporaneidade.
Como bem ressaltou Josué em seu histórico pronunciamento, não tem cabimento o MASC restringir-se a prosaica missão de pendurar ‘quadrinhos na parede’ para vender para os decoradores de plantão.
Uma das próximas  mostras que o MASC  trará para o vão central do museu (claraboia) será um specific-site do artista florianopolitano Roberto Freitas. Roberto formado na UDESC vem destacando-se por suas instalações sonoras que ampliam o campo de nossas percepções através da utilização dos sons.
 A análise consistente, o olhar inteligente  e sensível sobre a produção contemporânea que  tem caracterizado a atuação profissional de Josué Mattos enriquece sobremaneira  o MASC, ampliando consideravelmente as possibilidades e o alcance de sua atuação. Era justamente isso que  faltava e o  principal motivo pelo qual tanto lutamos.  O MASC portanto está em boas mãos e os artistas catarinenses não tem com o que se preocupar.  Trata-se agora  de cada um colaborar com seu interesse e participação para que esse processo de  renovação atinja  o Estado como um todo!
Graças aos céus, dessa vez os deuses foram generosos com Santa Catarina!!!

 MAKTUB.


domingo, 23 de abril de 2017

PLÉTICOS: os 93 anos do mestre, que nos anos 60, traz a Santa Catarina, através da sua obra, uma nova concepção do espaço pictórico.

     

         Trazendo para Santa Catarina em meados dos anos sessenta,  os ecos tardios da revolução cubista, Silvio Pléticos introduz, aqui no Estado, uma nova concepção do espaço pictórico, que ajudou a romper de vez com a tradição da narrativa linear descritiva predominante,  e a criar os alicerces para a renovação da plasticidade catarinense  que ocorreria nos anos subsequentes e se consolidaria nos anos oitenta.
O ambiente provinciano que reinava por aqui assistia então, assustado, ao aparecimento da primeira geração pós-moderna que dava seus primeiros passos. Pléticos  foi  na época, um dos únicos  interlocutores dessa geração, uma vez que havia uma resistência muito grande por parte do público,  e mesmo por parte dos artistas já estabelecidos, a qualquer tentativa de romper com a tradição da figuração lírica predominante, que era vista como a única  possível.
Pléticos introduz na pintura catarinense a técnica da passage,  que conduz o olhar a diferentes áreas da pintura, e ao mesmo tempo  que cria um sentido de profundidade, chama a atenção para a superfície da tela que projeta-se no espaço do observador.
Esses métodos ‘Cezanescos’ de retratar três dimensões recorrendo a múltiplas perspectivas, construindo formas a partir de diferentes planos que parecem deslizar ou passar um através do outro, já eram coisas do passado devidamente incorporadas  na tradição modernista, mas que na  prática jamais haviam sido exercitados  por aqui.
Na verdade, a rejeição da perspectiva  limitada a um único ponto de vista com sua representação ilusionista do espaço,  que predominou na arte ocidental desde o renascimento,  só foi encarada pelo cubismo,  cujos métodos revolucionários foram os catalizadores para boa parte dos movimentos que renovaram a arte da primeira metade do século vinte.

A atuação de  Pléticos foi portanto fundamental no sentido de estimular  nossos artistas  a romperem com a defasagem histórica e o anacronismo reinantes que engessavam a criatividade e desencorajavam a pesquisa.
Pléticos enfatizou sempre a importância da informação, do conhecimento profundo da história da arte, da reflexão e do pensamento analítico,  imprescindíveis para a compreensão das propostas contemporâneas.
Sua obra assenta-se sobre as tradições da pintura ocidental dentro das quais elaborou sua própria linguagem.
Num determinado período de sua carreira, impossibilitado de continuar  expressando-se através da técnica da pintura a óleo, recorreu aos grafitos  que  transitam entre o desenho e a pintura e que lembram os processos da gravura em metal.
Nos grafitos,  ele dá sua versão pessoal do desafio de Picasso  de representar  três  dimensões na superfície bidimensional da tela,  e do desejo de Braque de explorar a pintura de volume e da massa no espaço.
Estruturadas a partir de formas  interpenetrantes, em que a linha tem a função principal, as composições ousadas e monumentais dos grafitos de Pléticos  equilibram-se em seu conjunto através de detalhes que acentuam os efeitos visuais. O emprego de camadas superpostas de formas planas, cria simultaneamente uma sensação de algum espaço na frente do quadro e desloca outro espaço mais para o fundo. A distinção entre a profundidade pintada e a profundidade literal cai por terra, conferindo um sentimento arquitetônico, como se  a pessoa enxergasse as coisas tanto no plano como em elevação.
Essas são algumas questões estruturais básicas, que aportando  por aqui com a presença física das obras de Pléticos, refletiram melhor o clima intelectual que permeava as buscas  contemporâneas.
Propondo novas vivências espaciais, esses grafitos com sua concentração maior e distinta das outras fases do artista, fazem com que o olhar seja captado, deslize e se apoie em obras cujos desdobramentos propiciam, segundo a maneira com que o espectador as interrogue, uma sensível ampliação de suas percepções.
Circulando em meio a uma lógica espacial dinâmica e em interminável transformação, essas obras exploram as mais diversas articulações estruturais, levando ao limite suas possibilidades plástico-expressivas.
Refletem de modo particular o mundo no qual transcorre nossa  existência temporal.












domingo, 9 de abril de 2017

FERNANDO LINDOTE - O MAIS RELEVANTE ARTISTA CATARINENSE DA ATUALIDADE


Considerada  a melhor mostra individual do ano, a individual que Fernando Lindote realizou em 2016, no Museu de Arte do Rio (MAR) com curadoria do crítico Paulo Herkenhoff , deu sequência a uma  carreira brilhante que inclui participações na Bienal do Mercosul, Bienal de São Paulo, mostra individual no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo e individuais nos principais  espaços culturais do país.
Um dos vinte finalistas do prêmio Marcantonio Vilaça, Lindote,  com toda razão, é considerado pela crítica nacional como o artista catarinense mais relevante da atualidade.
A constante renovação de suas experimentações levou-o a percorrer os territórios mais diversos.
Demonstrando em todo seu percurso uma inesgotável capacidade de reinventar-se,  aderiu  nos últimos anos a “arte morta da pintura”,  através da qual foca a questão da representação, retomando coisas que anteriormente havia descartado como a figuração, a memória, o simbolismo e a narrativa.
Fases anteriores  de experimentações,  como a de obras construídas com fragmentos de EVA mastigados, propunham  ao observador vivenciar a própria presença  física do objeto sem recorrer a temas nem narrativas, numa proposição tipo “o que se vê é o que se vê”.
Já  em suas pinturas atuais,  por meio da alegoria ou do simbolismo, reintroduz o tema que em geral tem um envolvimento com a história coletiva ou memória pessoal.
Objetivando expressar a experiência de viver as perplexidades desse início de século, engaja-se em questões sociais e políticas, como fez recentemente em sua mostra denominada ‘Guerra! E a necessidade de fazer pontes’
Algumas  telas, dentre suas produções mais recentes, surpreendem com cenas de florestas aparentemente idílicas dessa nossa terra onde “nossos bosques tem mais vida”. Essas florestas  tropicais, exuberantes com  seus emaranhados de cipós, flora exótica e luminosidade  peculiar, foram  constante fonte   de inspiração para artistas  de todo o mundo,  que por aqui passaram nos séculos dezoito e dezenove, registrando  através das imagens botânicas captadas por seu olhar estrangeiro, as matrizes de um utópico ´paraíso tropical´.
São essas imagens que Lindote desloca e representa em novos e perturbadores contextos.


Ironizando a procura de identidades nacionais forjadas, recorre aos estereótipos dessas mesmas identidades,    tais como o personagem  do Zé Carioca,  que transforma-se de figura pop em elemento de arte elevada.
Introduzindo nas cenas figuras míticas como  Macunaíma,  cujo perfil primitivo e majestoso  recorta-se frente ao clima evocativo das florestas, fazendo justaposições  quase surreais de imagens de orquídeas   e flores, com grotescas imagens de macacos que surgem em meio a vegetação,  ou colocando frente a paisagens urbanas, figuras perturbadoras de  estranhos  seres com mascaras de coelhos ou suínos, dramatiza e questiona os próprios padrões de beleza e bom gosto, ao mesmo tempo em que expressa através da riqueza subjacente dessas imagens, alegorias e símbolos deslocados de seu contexto original, perplexidades  sobre quem realmente somos em termos de brasilidade e identidade nacional.
Afinal, somos o que somos como povo e como seres a partir de nós mesmos? Ou somos formatados e manipulados pelo olhar do outro, o ‘estrangeiro’,  que nos induz  a sermos ou nos percebemos dessa  ou daquela maneira e não de uma outra? Até que ponto, ser brasileiro é mesmo ter as características macunaímicas do herói sem caráter?  Até que ponto existe esse homem cordial tão citado em tratados sobre a identidade nacional  e tão imperceptível nos noticiários cotidianos que nos assombram com sua crueldade sem limites? Vivemos num paraíso tropical, rodeados de flores exóticas, orquídeas e bromélias como nos mostram os relatos dos navegadores que por essas terras circularam? Ou  num ambiente urbano degradado e hostil, ameaçados a cada passo  pela   crueldade e violência de uma sociedade desestruturada, transformando-nos  aos poucos sem nos darmos conta, em seres desumanizados, perplexos  e assustados,   bizarros  personagens de Ionesco, transmutados em rinocerontes,  lebres ou suínos?
Muitas questões são propostas por essa série de pinturas   de Lindote. Interpretá-las desta ou daquela maneira não esgota  evidentemente seus significados.
Por sinal,  uma das características mais admiráveis presente em todas as  suas fases , é o modo com que  articula  suas propostas,  fazendo com que vivenciá-las  seja sempre mais importante  que compreender  de   imediato seus desdobramentos e possibilidades.
Indo do minucioso ao monumental, essas grandes telas com seu reflexos  neo-expressionistas de forte conteúdo emocional, mostram  um artista que soube apagar traços de sua própria identidade, para questionar estereótipos  utilizando apropriações e recursos expressivos  eficazes, capazes de provocar debates sobre o significado de tais apropriações.
Significados que, sem dúvida, serão alterados na medida em que se distanciar a própria perspectiva histórica em relação aos mesmos.