domingo, 19 de março de 2017

Santa Catarina - Um Estado que Pune o Talento e Exalta a Mediocridade


Instalação de objetos  trançados com fibras vegetais - Berenice Gorini
      Desde os tempos de Cruz e Sousa foi assim! Sem reconhecimento em sua terra natal, teve que enfrentar o calvário que todos conhecem. Ainda hoje, mesmo com o reconhecimento internacional de sua genialidade, não é valorizado como merece em seu Estado,  que deveria ao menos ter  o texto de um de seus imortais sonetos reproduzidos em suas praças e jardins,  até seu busto de bronze roubaram  sem que ninguém desse a mínima por desconhecerem, por certo, sua importância. Seus restos mortais, trazidos com toda a pompa do Rio de Janeiro onde se encontravam, jazem esquecidos ali no palácio que leva seu nome. O memorial  que seria construído para abrigá-los, virou uma ruína abandonada sem condições de cumprir a função para a qual foi construído.
Esses não são fatos isolados,  em seu conjunto falam do menosprezo  com que nossa memória é tratada. É através da criação artística que transparece a alma de um povo, assim ao não valorizarmos o legado artístico de nossos artistas, estamos eliminando também possibilidades  de um conhecimento mais profundo de nós mesmos.
Os exemplos deste descaso são muitos. Citemos o caso de Ivens Machado. Recentemente, o Museu de Arte Moderna do Rio montou uma grande retrospectiva  desse que foi um dos artistas contemporâneos  mais importantes do  país! Por aqui, nem uma única individual dele foi feita  enquanto vivia e Santa Catarina praticamente desconhece   sua obra.
Considerado pela Fundação Bienal de São Paulo, como um dos três artistas catarinenses mais importantes da história da arte brasileira, Ivens só não teve seu talento reconhecido em sua terra natal.
Vontade dele de mostrar aqui seu trabalho não faltou, chegou a falar com um governador que por sinal era seu parente, mas de nada adiantou.  Os argumentos  para não trazerem suas obras, que foram mostradas nos principais centros culturais do país,   foram os mesmos de sempre: falta de verba. Mas sempre  existe dinheiro sobrando para árvores de natal subterrâneas,  corridas de autódromo  e coisas e tais. A cultura para os néscios nunca é uma prioridade, e quando ela é pensada é  sempre de uma maneira equivocada e vão direto para o KITSCH, para o qual nunca falta patrocínio!


Berenice Gorini e detalhes de suas tapeçarias tridimensionais
O ESQUECIMENTO, QUANDO SE TRATA DE MEMÓRIA CULTURAL, É UMA FORMA DE PUNIÇÃO. Vejamos outro caso: Berenice  Gorini, artista catarinense do sul do Estado, foi uma das primeiras tapeceiras brasileiras a encarar a tridimensionalidade. Desenvolveu  uma ampla pesquisa  sobre as técnicas tradicionais dos trançados em palha do litoral catarinense, sobre as quais publicou um livro. Sua obra,  exposta no Museu de Arte de São Paulo e  no Museu Nacional de Belas Artes, faz parte do acervo do Museu de Arte do Rio Grande de Sul que orgulhosamente a inclui entre as obras mais relevantes do acervo. Pois bem, recentemente  foi publicado o segundo volume do livro “Construtores das Artes Visuais”,  uma das raras  edições que abordam  a arte catarinense.  O nome de Berenice Gorini não foi incluído. Segundo  um dos membros da comissão que selecionou os nomes para fazerem parte da edição, o nome de Berenice foi citado mas não foi escolhido porque os demais membros não sabiam de quem se tratava. É bem possível que tenha sido assim,  pois seu  trabalho apesar da sua consagração nacional,  é praticamente desconhecido em SC,  justamente pelos motivos que nos fizeram escrever mais esse texto. Texto  incômodo  mas necessário,  pois talvez assim, um dia, as coisas mudem um pouco.
É urgente  que se criem condições  de organizar retrospectivas que circulem pelo Estado e  permitam aos catarinenses conhecerem  a obra de seus artistas mais relevantes. São também fundamentais  itinerâncias de mostras da  produção contemporânea  de nossos artistas mais jovens.
Essa política deve ser liderada pelo MASC,  ao qual devem ser dadas condições de apoio para que possam ser realizadas.
Santa Catarina é constituída de ilhas culturais, que não se intercomunicam!
Lembro-me de certa ocasião, em que fomos a Chapecó, eu e o então diretor do MASC, acompanhar uma mostra itinerante, e  ouvimos  da plateia  que participava de um debate a procedente acusação:  -Vocês lá de Florianópolis estão de frente para o mar e de costas para Santa Catarina!
Considerando que Florianópolis sedia o Governo Estadual,  é fácil avaliar o quanto essa acusação é grave.   Somos uma das maiores economias do país, isso todo mundo sabe,  o tratamento  dispensado à sua cultura e à sua arte deve ser sério,  competente e proporcional à importância que o Estado possui nacionalmente.
Quando isso acontecer (esperamos que seja o quanto antes), talvez nossos políticos também deixem de ter uma  importância apenas regional. As duas coisas andam juntas, um Estado se afirma em termos nacionais não só pelo seu PIB,  mas principalmente pela forma como trata sua arte e sua cultura, as mais legítimas expressões de  sua alma.
Como nossos textos anteriores deixaram  perceber, é exatamente o contrário que está acontecendo.  Tratando a cultura de forma leviana e irresponsável, entregando   os cargos mais estratégicos de sua gestão  nas mãos de quem não possui as mínimas condições de exercê-los, estamos cada vez mais cavando o fosso profundo que nos afasta da civilização e nos aproxima cada vez mais da barbárie.  Sob todos os aspectos é triste, patético, trágico e profundamente lamentável.
Santa Catarina não merece tamanho deboche. Vamos torcer para que as coisas mudem e tomem  um rumo menos deprimente....


Obra de Berenice Gorini, pertencente ao acervo do MASC.


Objetos de Berenice Gorini, executados na técnica de trançado de fibras vegetais.


 

8 comentários:

  1. Ótimo texto do Janga sobre a triste realidade da falta de reconhecimento dos artistas catarinenses.

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  2. Quando, fora de Santa Catarina, digo que nosso estado não tem secretaria de Cultura, assim como também não tem secretaria de Turismo, as pessoas me olham como se eu estivesse mentindo.
    Produtores - e consumidores - culturais e artísticos precisam encontrar uma forma de unir seus esforços para pressionar os políticos eleitos com maior intensidade.

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  3. Belo texto! E se estende para todas as artes, temos um problema serio de identidade cultural em Santa Catarina.No cinema é a mesma coisa. Pouco se valoriza, se destaca e se reconhece aqui em SC>

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  4. Não evolui em nada,,,o Estado criou uma máquina de alavancar votos que borrou toda a tentativa de fazer e reconhecer a cultura local! Parece um castelo fortemente armado em que não temos nenhum acesso, triste!

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  5. Infelizmente esta triste realidade se faz em todo Brasil, aqui no Paraná não é diferente, pessoas são colocadas em cargos sem a menor noção do que estão fazendo lá e assim caminha a desumanidade.

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  6. Brilhante e certeiro. Pena que a quem este é dirigido, encarará como mais um mi mi mi de artista. Às favas!

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