terça-feira, 4 de abril de 2017

MASC (nosso Promontório de Sagres, segundo Nelson Aguilar) Ressurge das Cinzas


Kátia Pensa Barelli, Josué Mattos e Cláudia de Figueiredo

Como já é do conhecimento público, o MASC,  após  longo período de hibernação, volta a ser conduzido  por um nome realmente capacitado para   exercer plenamente as funções de líder de todo um processo de revitalização e recuperação da credibilidade ameaçada por desatinos como os que presenciamos recentemente.
Nomeado para o cargo de administrador do MASC, o catarinense de Criciúma  Josué Mattos, tem em seu currículo dentre outras realizações,   a curadoria da TRIENAL DE ARTES FRESTAS de SOROCABA, evento que recebeu  as mais elogiosas  avaliações por parte da critica nacional.

Obra: Exit ball, 2009, de Romuald Hazoumé- Trienal Fresta
Sobre essa Trienal, Angélica de Moraes, uma das críticas mais atuantes e importantes do país, escreveu: ”É  com um suspiro de alivio e gratidão que saí da visita   a primeira  Trienal de Artes Frestas, excelente curadoria de Josué Mattos para o SESC de Sorocaba-SP. EXISTE COMPETÊNCIA NESSA ÁREA”, e conclui, afirmando que “o que a 31° Bienal de São Paulo extirpou quase por completo de nossa vista, a Trienal de Sorocaba nos restituiu”.

Obra que participou da Primeira Trienal Fresta - Curadoria Josué Mattos
Nossa insistência em indicar o nome de Josué para administrar o MASC, não aconteceu por implicância pessoal  para com esse ou aquele nome, mas pela certeza de que ao valorizar seus talentos, Santa Catarina estaria fazendo sua escolha certa. Felizmente, nossa indicação foi levada em conta pela nova gestão da FCC,  que ao que tudo indica recuperará o tempo perdido pela cultura catarinense nestes últimos anos,  criando condições para que ela se reestruture e avance.
A indicação do nome de Josué já tinha sido feita anteriormente.  Cerca de um ano e meio atrás, inclusive, fomos recebidos pelo então secretário de cultura Felipe Melo, que em princípio concordou com  nosso pleito, mas disse que a sugestão teria que passar pela aprovação do jurídico. Estavam  presentes nessa reunião além de mim, o administrador do MASC da época Kim Isac, o próprio Josué e as artistas plásticas Cassia Aresta e Karina Zen.
Antes dessa reunião,  havíamos enviado um ofício ao governador do Estado e para a superintendente da FCC,   Sra. Terezinha, que declarou a imprensa que o  gestor do MASC  já tinha sido nomeado,  sem  sequer dignar-se a responder nosso ofício. Era assim que nossos artistas eram tratados,  como se a questão do MASC  fosse um assunto deles e não nos dissesse respeito.
Com a nomeação de Rodolfo Pinto da Luz, encaminhamos novamente um ofício para a superintendência da FCC  com a sugestão de três  nomes para a administração do MASC,  dentre os quais estava incluído novamente o de Josué. O professor Rodolfo tem conhecimento das questões pertinentes à área cultural, sabe tomar as direções certas e sempre soube ouvir as vozes dos artistas, pautando  suas decisões pelo discernimento e bom senso. Isso nos estimulou a tentar de novo, apesar de termos sido solenemente ignorados pela gestão anterior da FCC,  e tendo de assistir calados “a vaca indo pro brejo”. A imprensa local ignora completamente qualquer assunto que não prime pela futilidade, assim restou-nos criar esse blog ‘Com a Pá Virada’, que nesses poucos meses de existência já conta com mais de vinte e duas mil visualizações.
Faz toda a diferença termos a frente da Fundação Catarinense de Cultura,  alguém que saiba de fato avaliar os problemas  que a instituição enfrenta, propondo soluções,  e que ouça as vozes  dos artistas dos diferentes setores, pois são eles que, melhor que ninguém, têm condições de avaliar o desempenho deste órgão tão vital para o amadurecimento da atividade artística entre nós. Felizmente nossa sugestão foi ouvida, e ao menos o MASC está a salvo por enquanto.
Mas muito ainda precisa ser feito. É preciso repensar muita coisa! O CIC, por exemplo,  para bem desempenhar seu papel, deve deixar de ser apenas mais uma repartição burocrática ‘meia-boca’,  transformando-se, de fato, num centro dinâmico de criação, com oficinas e ateliers ocupando toda a área que foi projetada e construída exatamente para isso.
Por problemas que todos conhecem, na recente restauração, metade do prédio nem foi reformado, apesar da fábula que se gastou quando as obras foram feitas.
Parte da construção virou um quase cortiço, com corredores lúgubres cobertos por tapumes improvisados, onde se desenvolvem os trabalhos burocráticos da FCC.
O GOVERNO DO ESTADO POSSUI VÁRIOS IMÓVEIS, QUE PODERIAM MUITO BEM ABRIGAR A SEDE ADMINISTRATIVA DA FCC, LIBERANDO O PRÉDIO DO CIC PARA AS ATIVIDADES CULTURAIS.
No momento atual, nem mais existe o  atelier de pintura,  que foi construído junto com as oficinas,  e acabou sendo utilizado para abrigar a escolinha de arte.  A escolinha de arte é importante,  mas não se justifica que a mesma se instale  junto de oficinas cujos objetivos são outros.  Nas oficinas, busca-se a formação  e aprimoramento de  artistas, que ali tem contato direto com as mais diferentes técnicas e linguagens, orientados por profissionais competentes.  Nas oficinas do CIC, vem-se formando gerações que tem dado contribuição fundamental para a arte praticada em Santa Catarina. Ao invés de diminuírem a área de atuação das oficinas, destinando seu atelier de pintura para outras finalidades, deveriam  é expandir seu alcance por todo o Estado, através do deslocamento  de suas atividades,  ou mesmo através da criação de bolsas e residências que possibilitem aos artistas catarinenses de outras regiões  terem acesso a seus cursos.
Quanto a Escolinha de Arte,  seus objetivos não são a formação de artistas, mas sim proporcionar as crianças uma oportunidade de desenvolverem sua criatividade expressando-se através dos meios que a arte oferece. Os objetivos das escolinhas são bem distintos daqueles que norteiam  um atelier de adultos. Pena que a FCC ainda não tenha percebido isso! Talvez agora,  com um gestor capacitado e  que sempre ouviu as vozes dos artistas, as coisas tomem outro rumo.  É  o que todos esperamos.
Uma boa sinalização neste sentido, foi  dada pela  nova direção da FCC,  através da indicação do nome de Josué  Mattos para a administração do MASC.  Referendado pelos artistas catarinenses através de suas entidades de classe, Josué foi um dos nomes propostos para essa função pela sua brilhante atuação profissional e formação.  Nome com transito nacional, saberá por certo reconduzir o MASC ao seu destino, deixando para trás os recentes tropeços.
Importante também a nomeação de uma curadora adjunta para a área de arte educação, área fundamental para um museu de arte. O MASC sempre teve presente essa importante função que dentro dos seus limites procurou desempenhar.  Com  a formação acadêmica da nova responsável por essa área, com certeza essas atividades serão consideravelmente ampliadas e amadurecidas.
São novos tempos com bons sinais.
Sinceramente, com o que vinha acontecendo nas gestões anteriores da FCC, o panorama que se delineava era totalmente desolador. Tratar com pessoas que não entendem nada do  assunto  é desgastante e de todo inútil,  pois fala-se  línguas diferentes  e não se chega a conclusão nenhuma. O pior de tudo é a postura imperial de quem acha que por estar temporariamente no poder, tudo pode.
Nestes tempos sinistros, que felizmente ficaram para trás,  coisas abomináveis ocorreram e acabaram por  afastar do CIC toda a inteligência local que foi  claramente hostilizada.
De certa feita, jovens estudantes de artes cênicas foram grosseiramente  escorraçados  ao ensaiarem na frente do prédio sob a alegação de que colocavam o patrimônio em risco. Em outra ocasião, quando ocorreu a ocupação do CIC (Movimento Ocupa CIC!),  o superintendente imperial  simplesmente recusou-se a falar com  artistas e associações das mais  diversas regiões do Estado,  que ali estavam para propor mudanças na situação intolerável de descaso e omissão. Ao invés de dialogar educada e civilizadamente, o então superintendente limitou-se a ignorar as questões levantadas. O CIC  pertence aos artistas catarinenses e ao público que prestigia suas atividades, isso tem que ficar sempre bem claro! Subestimar a inteligência, sensibilidade e capacidade crítica do público como fizeram na gestão passada, chegando a colocar um elefantinho branco todo decorado (uma gracinha!!)  na frente do centro cultural, como se obra de arte fosse,  é no mínimo um deboche  para com a cidade e o Estado, sinal  evidente do despreparo e da absoluta falta de noção do que se conceitua como arte e cultura por parte de quem estava responsável na época  pelo local, onde  aterrizou o gracioso  elefantinho.
Cada coisa no seu lugar.  Eventos como as ‘Cow Parade’,  ‘Elephant Parade’ ou seja lá que ‘parade’ for,  pertencem a área do entretenimento, são engraçados e divertidos mesmo que de gosto discutível, mas não podem ocupar os espaços destinados às legitimas manifestações culturais de um povo, sob pena e risco de reduzirem  tudo a  fútil mediocridade descompromissada da cultura de massas, proposta pelo sistema argentário em que vivemos, que só leva em conta  as finalidades marqueteiras e o lucro.
Aliás, falando nas “parades” da vida, o administrador do Masc na época, afirmou, através de uma publicação aberta na página (facebook) do próprio museu, que a mostra A Pele “coloca a exposição local em outro patamar”. Não dá para se entender direito o que quis dizer com isso, talvez estivesse se referindo ao evento dentro da mostra, que colocou  33 artistas participantes para pintar cada qual uma árvore vermelha, com o detalhe de que nenhum deles teve o aval de um curador capacitado e muito menos do conselho consultivo do museu, já que o mesmo encontrava-se desativado a mais de um ano. É ai que está a questão! Do jeito que a coisa foi feita, parecia tratar-se de uma versão ‘singular’ dos eventos ‘parade’. No caso, essa Tree Parade (alameda coletiva de árvores vermelhinhas), dá seqüência a eventos de igual natureza. Tal como no ‘parade’ original, as obras serão leiloadas no final da exposição, através de leilão com fins filantrópicos. Não é necessário dizer que o Masc não é o lugar adequado para eventos de tal natureza, que definitivamente não levam em conta a principal característica de uma proposta que é a sua qualificação e relevância cultural, reconhecias por profissionais da área.
Em 1976,  o crítico Olívio Tavares de Araújo, curador da mostra ‘Brasil ARTE Agora’, percorreu  os atelies dos artistas catarinenses  buscando nomes que pudessem representar o Estado no evento. Suas impressões, registradas  no catálogo da mostra foram as piores e afirmou:”-Em  Santa Catarina prevalecem trabalhos anacrônicos e de tosca execução”.
Na época, estávamos retornando para Santa Catarina e refletimos sobre a gravidade da situação denunciada nas palavras de Olívio. Algo precisava ser feito para reverter o quadro.
Começamos pela maneira que estava mais ao alcance,  que eram os textos enviados aos jornais em  que  denunciávamos a opressão do mau gosto provinciano, o comodismo e o marasmo. Depois, partimos para a organização da classe artística em torno das associações que foram sendo criadas. Assim que o MASC mudou-se para o CIC, conseguimos que o governador do Estado da época, Esperidião Amin, cedesse o local para sediar a ACAP (Associação Catarinense dos Artistas Plásticos), que eu presidia.  Ali, desenvolvemos um trabalho que foi colocando novas questões para nossos artistas. Realizamos mostras de out-door, propondo o desafio do grande formato e da intervenção urbana. Mostras de arte na rua como os estandartes,  alcançaram repercussão nacional, e foram aos poucos dando visibilidade   ao que se fazia por aqui.
Cursos de arte contemporânea, primeiras performances  e instalações  mostras de arte postal, intercâmbios com artistas de outros estados, tudo foi ocorrendo de forma planejada de modo a proporcionar uma atualização aos artistas e ao público, movimento que foi reafirmado quando através da ACAP, conseguimos que Harry Laus fosse consolidado para diretor do MASC.
Lembro-me dos almoços semanais com o Harry ali na Tiradentes, quando ficávamos arquitetando o que faríamos a seguir para  estimular o processo de renovação que ocorria.
Após uma década de conquistas e lutas, foi montado em 1990 o ‘Panorama do Volume’ no MASC, divisor de águas  que     demonstrou o quanto os artistas catarinenses tinham evoluído em termos de atualização e assumido os desafios de sua época. A crítica paranaense Adalice Araújo, em sua coluna de artes plásticas da Gazeta do Povo, de Curitiba, considerou essa mostra como sendo de padrão internacional,  e afirmou que vários dos artistas participantes não ficavam nada a dever em relação ao que estava sendo feito nas principais mostras internacionais de arte.
Como vemos, o progresso foi considerável. Por essa mesma época, a UDESC transformou seu curso de educação artística em bacharelado e passou a alicerçar e dar sustentação  teórico-prática aos novos artistas que foram surgindo.  Apesar das inevitáveis atitudes  reacionárias dos que  queriam a todo custo manter o status quo de acomodação e anacronismo, o processo de renovação foi se consolidando. Por dez anos assinei colunas de arte nos jornais locais, eu e Harry deflagramos um verdadeiro fogo cerrado contra a opressão do mau gosto provinciano.
Hoje, dezenas de  artistas catarinenses fazem parte do circuito nacional de artes.
Muita coisa mudou, porém é necessário continuar a luta para não permitir retrocessos nem deixar que o  marasmo e a mediocridade pretensiosa novamente se instalem. E é justamente ai que o MASC  tem que continuar exercendo  o papel fundamental que teve    na instauração desse processo de qualificação e atualização da arte praticada em Santa Catarina.
Já tínhamos decidido pendurar as chuteiras, pois é cansativo e chato bater sempre nas mesmas teclas, mas quando a gente pensa que as conquistas foram consolidadas, lá aparece um zé mané da vida  e ameaça botar tudo a perder.
Fatos aparentemente sem importância, tais como  o de uma exposição ocorrida nas dependências do MASC  sem o aval de um curador ou de um conselho consultivo, não são tão inocentes assim como parecem.
Eles abrem precedentes para o ‘estouro da boiada’ e dai não tem como consertar o estrago. Uma vez que se perdem os parâmetros, nada mais pode ser feito, pois tudo se reduz a vala comum da mediocridade.
Analisemos, por exemplo, a possibilidade de que  hoje, algum crítico do eixo Rio-São Paulo, de passagem pela capital catarinense, resolvesse visitar o MASC  de surpresa  para conferir o que se está fazendo por aqui.
Ao deparar com a bizarra ‘alameda de arvorezinhas vermelhas’, expostas  nas salas do museu,  levaria um susto e veria de tudo: árvores com penduricalhos tipo espelhinhos, borboletas, fitas,   coraçõezinhos, etc.. Veria também, como se obras de arte fossem, galhos pintados de vermelho com latas embutidas, árvores com seios, ninhos com ovinhos, abelhinha sobrevoando o umbigo, árvores de olhos... Veria de tudo enfim,  desde árvores  com casinhas penduradas pintadas por quem fez sua primeira “pintura” na vida, até as interpretações mais toscas e  anacrônicas como jamais se viu no MASC!  A conclusão do visitante se se propusesse a analisar o que viu não poderia ser outra: o texto de Olívio Tavares escrito a quarenta  anos atrás  ainda teria sua razão de ser. Se o principal Museu de Arte do Estado coloca e endossa com orgulho a sua “Tree Parade” e coisas que tais, como referência do que  se conceitua como arte por aqui, realmente é inevitável concluir que “em Santa Catarina continuam prevalecendo trabalhos anacrônicos e de tosca execução”.
Entenderam, caros leitores, a real dimensão do problema?
Felizmente, parece que por  ora, o pesadelo acabou, mas é necessário continuarmos  atentos e vigilantes.
A  batalha foi vencida mas a luta continua.

(continua..)



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